3.30.2011

Sangue de Estrela - StarBlood

Tracemos um paralelo entre a existência imemorial de uma estrela e seu foco, seu sangue. Tenho em mente exactamente agora uma imagem que há muito não imaginara, uma estrela sangrando. Tão violentamente que posso sentir a pulsação da sua dor e lástima pela perda, sua reflexão sobre a anti-matéria liberada e sobre seu pesar em relação à sua prole.

Eu vejo estrelas em dias claros, é um dom, e hoje eu vi uma sangrando. Hesitei por um instante, pensando tratar-se de rastros espaciais até poder sentir a transgressão do que estava acontecendo. Ela sangrava, meus irmãos, sangrava e se derramava pelo que estava ao redor, gerando ainda maior angústia pelos fatores de incompetência assistencial. Ela sofria e agonizava, sozinha, no seu próprio campo e em simultâneo eu chorava e era infligido pela sua pressão. Minha conexão com ela era desconhecida até então, eu sabia que podia vê-las mas não que poderia senti-las, talvez seja algo que esteja vindo com a idade do meu sangue.

Não sabia se preferia ver ou me abster da sensação, meu coração decrépito parecia estabelecer um pacto de post mortem com o astro, como se ela pedisse para continuar vivendo, em mim. Eu negligenciei minha honra quando entrei no frenesi da sede pelo seu sangue e lutei arduamente contra meus princípios, antevendo uma implosão quântica pela reação cataclismica de duas esferas de tamanho e densidade iguais ou ainda um Buraco de Minhoca (WormHole), caso me aproximasse demais do seu campo. Física, pura e simples, aprendida com grandes nomes. Mas e a Filosofia, como se representa neste ato?

Percebi aos poucos - no intervalo de milésimos de anos-luz - que tratava-se não de uma morte mas sim de um renascimento. Ela sangrava como forma de se livrar do peso que carregava. Em outros tempos chamávamos de sangria. Claro, isso não muda o risco, muda apenas a intenção.

Ela se mantinha firme no suicídio assistido enquanto todos choravam por não conhecerem a intenção. Pela mesma conexão senti que não era pretensão quando a ouvir dizer:

" - Minha Liberdade, é o que quero. Não atenho-me mais a criar, quero ser renegada. Não vos bastam todos os meus filhos caídos? Não vos pertencem muitos de meus campos? Não é suficiente o quanto eu sofro por ouvir suas preces sem ter a onipotência que queria para satisfazê-las? Tenho respostas mas não tenho as perguntas certas, por isso peço que me deixem ir. Me permitam ser Nada. Oh deuses que habitam o Cosmos, eu rogo pela sua clemencia e misericórdia, ofereço meu sangue híbrido como pagamento. E se não permitirem por bem todo o mal que faço, ousarei rebelar-me. E numa batalha eu cairei, desonrada, pois não posso com vossos poderes. Tudo o que peço agora é que me dêem a Liberdade para tomar minhas escolhas, sem abandonar o que tenho, nunca esquecendo o que fui e sendo autoridade no que possa fazer, a responder pelos meus próprios atos. É o primeiro desejo de uma Estrela."

E mais uma vez, após tanto tempo, eu chorei. No mesmo ínterim eu compartilhei da vida da estrela, seus feitos, sua prole e suas palavras fizeram todo o sentido. Por quantas vezes eu as observei daqui sem nunca imaginar o quanto sofriam e eram dilacerada por emoções que não conseguiam compreender, inúmeras. Esta estrela em especial contou-me seu nome e assim eu entendi tudo, desde o princípio das eras. Eras que nem eu mesmo acompanhei e compreendi sua real idade, exponencialmente mais velha do que eu quando me sobressaltei. Ela não falava aleatoriamente com os deuses, ela se dirigia a mim quando falava.

Como se estivesse representando um papel toda a fala era destinada a mim. Ela me conhecia? Eu a conhecia anteriormente? Porquê uma intimidade estranha era nítida e tocável entre nós?

Eu me mantive inalterado, emudecido, pelo medo da resposta e pelas descobertas, enquanto a estrela sangrava. O sangue já atingia galáxias longínquas e mais astros se juntavam a contemplar sórdidamente o ato. Massa, pressão, sangue e gás. Os outros começavam a declinar à presença já que seus corpos eram atraídos, sugados, para a poça que era formada no decorrer da cena da estrela, muitos tentavam se afastar mas não conseguiam e o que parecia um ato isolado acabou por se tornar um massacre de pequenos astros, estrelas menores, cometas, planetas e buracos negros e brancos. Todos mortos, findados, sem opção, pelo ato irremediável da estrela sedenta e sangrante. Ouviam-se choros por todas as galáxias conhecidas, rebeliões e a pressão. Toda aquela pressão era ensurdecedora, mas a estrela continuava clamando aos deuses por sua autoridade pessoal.

Por um outro milésimo, eu simplesmente apaguei. Não vi o que aconteceu. Não vi mais nada nem ouvi nem senti. Estive fora por míseros instantes, o suficiente para na volta não reconhecer mais o local da partida. Não havia mais estrela ou astros mortos e decompostos, talvez o único fato que comprove o que aconteceu é que o sangue da estrela estava em meus lábios, eu o reconhecia, e que de uma forma estranha eu estou mudado. Meus olhos tornaram-se mais claros (visível e brutalmente mais claros), minha reflexão e minha percepção estão mais aguçadas do que nunca e agora eu estou atemporal.

Não posso garantir o que aconteceu, nem por que ainda sinto a voz daquela estrela em minha mente. Talvez um dia eu compreenda, mas confesso que agora não me é relevante.


E neste momento sinto-me como Michelângelo, defronte a Moisés:

Parla! Parla! Perché non parli?

- Obra completamente escrita por L. exceptuando a citação de Michelângelo destacada -

2 comentários:

Sofia Geboorte disse...

Belas palavras jovem mestre. A profundidades de teus hieroglifos atingem-me de tal maneira, que fico a pensar sobre as estrelas que sangram e se suicidam ou tão somente se renovam.
Essas estrelas que se apagam...não falam...
Beijos
Sofia

OBVMBRATIO disse...

why don't you share that amazing blood with me...?