1.08.2012

Ouço imagens, vejo sons


Minha imagem não é o que sou. Minha voz ecoa além do que posso ser ouvido. Cada pequeno gesto do meu corpo é sensivelmente controlado, levando em conta o mundo de papelão em que vivo. Cada toque, cada sopro, cada desaforo, todos morrem comigo. Por vezes posso sentir o ar enquanto rodopia minha pele gelada, dançando em torno da minha culpa, abduzindo parte da minha dor ao ludicamente interagir. Parte congruente, parte incessante.

Não quero aqui mais uma vez evidenciar minha tendência à megalomania. Não. Preciso apenas escrever com meus olhos o que sinto com meu sangue. Temo a obsessão porque ela gera a morte. Fixo em um canto vazio do meu inconsciente algo que preciso lutar por, conquistar ainda que em passos inconstantes. Não é a música que me abstrái nem o que ela provoca em mim, é meu desejo de fazer parte dela. Parte da coerência vibrante que torna o som um verdadeiro dom. Mexe comigo, me toca as partes desconhecidas, se deleita em mim e toma posse do meu orgasmo incorreto, criando dele filhos que nunca verei crescer.

Tive muitas crianças quando me deitei com a Música, cada uma acabou morrendo ao me ver. Todas notaram que seu pai é algo silêncio, coisa que por si só corrompe as criações puras. Todas as minhas crianças choraram ao ver um pai que toca o céu com uma doce canção sem som, que sai de seus olhos, passando através da pele e dos pêlos e que se torna impuro para si mesmo. Minha imagem - que nunca seria tão doce quanto minha necessidade de cantar - surpreende pelo meio-homem inteiro que sou.

O que mostro de mim se torna alimento de deuses tão imortais quanto eu, mas que sobrevivem de pesares. Experimento viver num Tempo diferente, num mundo diferente, que giram numa sintonia suavemente distinta da atual. Escrevo por códigos que só os de minha raça entenderiam, se ainda houvesse algum por ai a me ler. Experimento também compreender o que vejo, com os ouvidos. Cheirar com meus olhos, tatear com meu faro, ouvir com minha lingua e sentir o gosto com minha pele.

Sentir o gosto com minha pele.

Nada poderia assumir uma forma mais brutal do que a poesia.




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