5.02.2012

Eu só precisava contar...


O conto da Madame Serpente Branca é algo que me estimula a não amar, tomar a decisão como a Serpente Esmeralda fez sabendo que o amor pode ferir muito mais do que compensar. Optei. 
No exato caminho que me encontro, existem dois rumos: ambos em amar. O que os diverge? Amar um homem ou amar um homem, ser o demonio conhecido de um ou revelar o demonio desconhecido a outro? O que é mais importante: amar ou encantar? O que eu estou disposto a sacrificar se descobrir que for amor?

Desejo a Amitabha de Buddha porque preciso de reflexão.



O conto da Madame Cobra Branca - Bai Shu Zhen 



Havia certo feiticeiro na China antiga, um Monge (Fa Hai), conhecido por ser o protetor dos humanos, afastando espíritos maus, maldições e demônios deste mundo. Ele tinha todas as bênçãos de Buddha e com seu poder lutava de igual para igual com grandes forças ocultas. Havia também um humilde curandeiro (Xu Xian), preocupado em ajudar a todos e prestar os seus serviços da forma mais humana possível. Por fim, havia um demônio-fêmea muito antiga, chamada Serpente Branca (Bai Shu Zen), capaz de grandes feitos pelos seus milênios.

Acontece que este demônio, certo dia, encontrou o curandeiro às vistas e se apaixonou por ele com tamanha intensidade e presença que por diversas vezes o socorreu, incógnita, enquanto ele colhia flores e frutos pela floresta em busca da panaceia de seus pacientes. Ele nunca soube dela, ela sempre o seguia, mesmo aconselhada por sua irmã mais nova, a Serpente Esmeralda, e seus pequenos amigos. Um dia, ao colher uma certa espécie de flor à beira de um abismo, o curandeiro desequilibrou-se e caiu. A Serpente o salvou da morte com um beijo, ou ele se afogaria no lago que estava oculto ao abismo. Ali fora seu momento de glória e quando o curandeiro declarou-se apaixonado por ela, sem conhece-la de verdade por estar portando sua forma física humana.

O Monge, neste ínterim, continuava sua missão de derrotar e prender demônios, estando atrás dos famosos demônios-raposas, que infestavam a cidade com sua praga. Algo que, mutuamente, o curandeiro tentava solucionar sem saber se tratar de obras demoníacas.

O curandeiro e a Cobra se casaram, passaram a morar juntos e se amavam, mesmo com a mentira dela latente. Certo dia, o Monge a reconheceu enquanto caminhava pela cidade e o que sucedeu foi uma briga de proporções épicas, de igual para igual, em que o feiticeiro com a vantagem exigiu que a Cobra deixasse o reino dos homens. Ele era justo e reconheceu o amor dela, assegurando que seria uma situação delicada quando ele soubesse da verdade. Ela, logicamente influenciada pela obsessão, não deu ouvidos e permaneceu com o esposo, mesmo avisada. Ao encontrar o curandeiro, o Monge entregou-lhe a Adaga dos Espíritos, para sua proteção.

Os demônios-raposa ainda infestavam a cidade e sua maldição estava corrompendo o coração de todos os homens, enquanto o curandeiro nada podia fazer. Sua esposa, ciente de que se tratava de algo espiritual, cedeu parte de sua força vital à panaceia, para que surtisse efeito. E foi o que realmente aconteceu. Com a fraqueza dos raposas, o Monge conseguiu detê-los e portanto, passou a perseguir a Cobra. A encontrou na morada do curandeiro e recomeçaram a briga, não por maldade ou desapego do amor que eles sentiam um pelo outro, mas por que ela mentia, era um demônio e relações como esta nunca dão bons frutos. Era para proteção do curandeiro que ele lutava e mesmo assim a Cobra não entendia, exigia liberdade e era agressiva. No meio da luta, tomou novamente sua forma reptiliana, o curandeiro chegou em casa, viu a enorme Serpente Branca acuada, e, usando a adaga, a feriu. Ela não pode revidar já que o amava, apenas fugiu e esperou para encontrar a morte. Sua irmã Esmeralda a carregou e cuidou dela, mas não havia maneira de se recompor a perda pois já estava fraca por ter cedido parte de sua energia vital e por que a adaga era ainda mais velha do que ela.

O Monge então contou ao curandeiro que na verdade, sua esposa era a Cobra e que havia tomado a forma humana para poder amá-lo. O curandeiro estremeceu entre o medo e o amor, e o Monge deu seu trabalho como feito. Porém, um dos amigos menores da Cobra foi até o curandeiro com a esperança de que ele ainda pudesse ajuda-la e contou sobre a Raiz dos Demônios que serve de cura e alimento, e que se encontrava no Pagoda LeiFang – uma espécie de templo. O curandeiro, após ponderar no amor que tinha, cedeu ao risco e acompanhou o pequeno espírito até o templo.

Lá enfrentou diversos males à alma mas resgatou a Raiz, deu-a ao espírito para que a levasse à Cobra e esperou por sua visita. Porém, ao sair do Pagoda, foi tomado pelos demônios menores que ele libertou ao remover a Raiz do templo e acabou causando um enorme estrago, tendo sido necessário o Monge intervir. O prendeu e programou um feitiço de expulsão de demônios.

O espírito menor chegou à Cobra, deu-lhe a raiz e ela se recuperou, ouviu a história e considerou seu amor pelo curandeiro, indo ao seu resgate, imaginando que ele tinha sido condenado pelo Monge pelo crime que cometera para salvá-la.

Lá chegando, tentou invadir o templo, porém o Monge já imaginando havia colocado barreiras mágicas para que ela não entrasse. Com a ajuda da sua irmã Esmeralda, ambas na forma de Serpente, forçaram e tamanho poder era o da Branca que invocou uma enorme onda que inundou o templo e toda a área em volta. Tamanho poder e fúria irracional. O Monge batalhava, mas se via em desvantagem ao ter de cuidar dos outros monges, da cidade, do ritual de exorcismo e das Serpentes em tamanha briga.

Por fim, o templo se abriu e a Cobra trouxe seu amado pra si, antes do ritual ter se completado. Notou que havia algo de diferente nele: ele não se recordava de tê-la conhecido. Ela ignorou e batalhou contra o Monge, alegando que ele era o culpado da situação. Por fim, exauridos, ambos derrotados, ela se mantinha em vantagem pelo fogo que ardia do amor pelo curandeiro. O Monge, evocou sua ultima força e a derrotou, com a ajuda dos Mil Braços do Iluminado.

A Cobra, foi sentenciada a retornar ao seu mundo pelo Pagoda e de lá, pediu a Amithaba de Buddha – Sua misericórdia – e lhe foi cedido se despedir do seu grande amor. Ela saiu pelo LeiFang e chorou defronte ao seu amor, que ainda não se recordava dela. Chorou e prometeu que choraria pelos dois, pelo amor que eles perderam e que ele, somente ele, não se lembraria. Ao beijá-lo pelo amor verdadeiro, Buddha também concedeu a Amithaba ao curandeiro e ele se recordou. De tudo. Mas, já era tarde demais. A Cobra pagaria por sua intempestividade, fúria irascível, medo, crimes, mortes e pela negligência do seu próprio amor, presa no Pagoda durante toda a eternidade. O Monge, manteve seu trabalho mesmo não tendo outros grandes perigos ameaçadores. O curandeiro, permaneceu em torno do Pagoda, cuidando dos jardins, sabendo que seu grande amor estava lá, presa para sempre e sem poder mais estar em sua presença. 



Nota minha: Existem versões diferentes deste conto, alguns colocam Bai Shu como extrema vítima e Fa Hai como malvado, algumas invertem. A minha apenas priorizou o amor que Xu Xian sentia, o que há de mal em juntar humanos e demônios e como pode ser perigoso manter uma Tempestade no coração de um ser.
 

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