8.04.2012

Certa tarde em Laoris


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Ela dançava beirando à insanidade, êxtase, enquanto ele pleiteava a atenção das fadas com seu violino.

Ela, por quase sobre a relva da planície, vestida apenas com um manto sujo, coroada com espinhos que faziam sua testa sangrar um sangue coagulado, olhos brancos de uma palidez lunar e asas deformadas, consumidas pelo fogo. Ele, recostado abaixo de um cedro que exalava até o próximo bosque. Vestido de branco impecável, olhos vermelhos ardentes e asas de uma clareza vislumbrante, todas as penas intactas e de um brilho dourado ao rebater da luz do sol. Eram anjos, ele e ela, porém ela havia caído e ele tocava pela Felicidade dela. Eram amantes desde antes as estrelas nascerem. Os animais silvestres os circundavam, também em glória pelo que viam. O urso sentado à beira de uma árvore morta servia de abrigo para coelhos pequeninos. As aves, de rapina e menores, se aglomeravam nos mesmos galhos. Serpentes, animais maiores daquela região - todos eles - sabiam que havia algo de supremo naquela cena.

Ele continuava a tocar e ela a dançar, sorrindo para ele como se a dor não a dilacerasse por dentro. A música preenchia as esferas e a anjo flutuava, sublime, aplaudida pelas fadas que compunham o cenário. Ele apenas estava ali por ela, nada mais. Nada o faria mais feliz do que acompanhá-la. Não era Orpheu, ele sabia, mas também sabia que seu violino já encantara deuses e demonios anteriormente, no passado breve e distante. Era uma daquelas sensações de alívio surreais que imaginamos ao pensarmos como seria nossa iluminação. Ela dançava com o corpo, com as vestes, com o cabelo e com os olhos. Ele tocava com as mãos e com o coração. Os beijos que eles trocavam eram etéreos e não precisavam de toques. Havia musque, sândalo, mirra e sálvia no ar. Criaturas estranhas também estavam lá, apenas para comprovar aquele amor.

Certa hora, ao início do pôr-do-sol, parecia que nada havia acontecido. Que tanto tempo não havia se passado pois os animais e as flores, além das fadas, permaneciam estáticos observando-os. A palavra correta para uma ocasião como está é Superior.

Quando metade dos acordes do violino já eram dedilhados, ela alçou voo e permaneceu acima da copa das árvores maiores. Ele a chamou pra si mas ela, de maneira lúdica, o convidou a subir. E foi o que ele fez. Juntos, no alto, eles continuavam. Ele deixou o violino cair propositadamente apenas para poder abraçá-la, sem medos de se contaminar, sem receios pelo que ela havia passado e o quanto isso poderia afetá-lo. O violino não se partiu, foi aparado pelos animais de longos pelos.

Ele a beijou - agora fisicamente - intensamente. Haviam estrelas caindo quando o sol se pôs e o horizonte parecia convida-los à uma festa parcamente iluminada, apenas com Evangeline ainda no Céu a admirá-los. Ela o beijou como se fosse um último beijo, o agarrou e se colocou sob sua proteção, à sua costela, como acontecera antes com a formação dos humanos pelo Mesmo que os criou. Ainda havia música no ar, não se sabe de onde vinha. (Ele suspeitava que eram seus corações compassados, ritmados numa frenética disposição um para com o outro). Era o rio, o vento, as folhas, as fadas, o Céu, Deus. Era tudo o que eles queriam mas queriam apenas um ao outro, para sempre.

Logo a noite caiu e o som se foi, assim como os animais. Os anjos permaneceram na mesma forma e posição, no alto, beirando as primeiras nuvens noturnas, enlaçados como se não houvesse Tempo para eles. É, realmente não havia...

E pelo primeiro brilho da lua, eles simplesmente desapareceram no ar.

Laoris, Duodécimo dia do Milésimo Septuagésimo ano em que eu a conheci.

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