3.26.2013

Do que se trata um sonho se não há Felicidade nele?


Era noite, como é agora, porém ontem. Ou anteontem, não me recordo. Chovia, também.

Estava eu a perambular pela minha própria vida, começando a adormecer - ao menos eu achava que estava. Pensei em como as coisas podem fugir do nosso controle e como as pessoas em si são efêmeras em nossas vidas. Ou não são, e nos levam a fazer loucuras por amor ou ódio. No meu caso, pelos dois.

Tinha um livro em minhas mãos, se bem me recordo. Ou era uma adaga? Tudo está tão caótico na minha lembrança agora. Havia um aroma que me perseguia e ainda não consegui descobrir do que se tratava. As Damas-da-Noite estão florescendo, provável, já que a Lua está para mudar.

Lembro-me de deitar em minha cama e lágrimas desciam-me aos olhos, mas não eram lágrimas comuns, havia fogo nelas. Um fogo líquido que eu já mencionara antes. Sentia minha pele arder e meu coração inchar como um balão de festas de aniversário. Lembro ainda de colocar os fones de ouvido e me propor a adormecer ouvindo alguma canção, era cedo ainda. Logo o sono chegou.

Durante o sono, me vi sonhando com a perseguição. Como um lobo segue sua presa pelo inverno europeu. Eu era o lobo, voraz e sedento não pela carne mas pela alma dele. Depois eu era como um corvo que o seguia apenas para agourar sua vida. Então eu era um verme gigantesco que se deliciava com sua carne morta, deitado no caixão ordenado. Por fim, eu era o demônio que exigia sua eternidade.

Recobrei a consciência, eu era homem novamente e estava à porta de alguém, não sabia exatamente quem até chamar pelo seu nome involuntariamente. Lembro da cor da sua varanda - verde-água - e de grades brancas que subiam na altura da cintura acima. Lembro que havia umas pequenas mudas de rosas em um canteiro e um cheiro de laranja-da-terra, barro, crisântemo e jasmim. Chamei seu nome novamente e eis que, àquela hora da madrugada, ele me atendeu, aturdido e desacreditado. Aproximou-se de mim, ao portão, questionando minha presença. Pedi o convite para entrar, ele hesitou. Pedi novamente e ele cedeu.

Daqui em diante só me recordo de cenas e um borrão inunda minha memória: com a velocidade de um ciclone eu entrei, agarrei-o fortemente, imobilizando seus movimentos. Beijei sua boca ferozmente e contra à sua vontade, desci com minha língua até seu pescoço e uma veia pulsava, quase que chamando por meu nome. Rasguei sua jugular com minhas presas e bebi até me fartar e engasgar, enquanto sua própria vida escoava e se juntava à minha. Bebi parte do seu cerne, mas o deixei ainda consciente - um pouco, queria que ele testemunhasse o erro que foi me convidar a entrar. Arrastei-o até o interior de sua casa e o movimento fez com que sua família se exaltasse. Na mesma velocidade, quebrei o pescoço de sua mãe com um gesto simples, para que não sentisse dor e rasguei seu pai do abdome para cima, após enfiar minhas unhas em suas vísceras e dilatá-las forçadamente. Havia sangue por todas as partes, isso colocou-me em frenesi. Levantei-o, o pouco que sobrara da sua vida e o beijei novamente, forçando seu pescoço para estancar a hemorragia já que minha intenção era beber ainda mais, de lugares diferentes, e assim o fiz. Bebi do seu peito, do seu pulso, da sua coxa, da sua boca e voltei à jugular. Já exangue, seus olhos se tornaram pálidos e enevoados, sua boca não mexia, completamente destroçada pelo meu beijo. Para não dizer que ele se foi sem dizer nada, uma única frase soou de sua boca, com muita fragilidade: "- Eu ia amá-lo, se tivesse me dado tempo". Eu sorri abertamente, quase como um monstro. Mais, exatamente pior que um monstro e mais alto que um demônio faria. Segurei novamente seu corpo e me juntei a ele, agarrando-o fortemente num abraço culposo.

Então despertei, exaurido do sonho e temeroso, nauseado e com dor de cabeça.

Porém, ao despertar, continuava a sentir aquele aroma inebriante e ferroso. Olhei as horas no despertador, quatro e quarenta e seis, tiquetaqueando. Levantei o lençol e pretendia ir ao banheiro jogar uma água gelada no rosto quando senti algo úmido. Passei a mão ao longo da cama e havia algo desconfortante lá. Acendi a lâmpada do abajur e eis que o corpo estava deitado junto a mim e a cama era uma sopa de suor e um pouco de sangue - o que havia coagulado dele.

Nada daquilo era sonho. Eu o matei e fiz com prazer. Matei seu corpo, sua familia, sua alma e seus sonhos e nada me deixou mais feliz. Voltei a dormir, deixando tudo como estava, mas agarrado ao cadáver como um boneco.



"Quando um louco lhe parecer completamente lúcido - eis a hora de colocar-lhe a camisa de força."
Poe, E. A.

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