Pensei e andei pensando, acabei por convidá-lo para um pequeno jantar em algum restaurante conhecido. Era tarde ainda, mandei uma mensagem com o convite e recebi uma mensagem de aceite.
Chegou a noite, tomei uma ducha, me arrumei e peguei um taxi até a primeira parte do encontro programado. Mandei uma última mensagem de confirmação, como não houve retorno, resolvi telefonar. Conversamos e confirmamos o local. Cheguei pouco depois dele e nos dirigimos à nossa mesa.
Fomos atendidos, ele pediu carne com vinho tinto, eu optei por uma salada e vinho branco. Conversamos, colocamos os assuntos em dia, até sorrimos de alguns casais que estavam à nossa volta. Ficamos no restaurante por umas poucas horas, afinal tínhamos outros planos para aquela noite. Usando do subterfúgio do toalete, devolvi o que havia ingerido pois já me afetava internamente. Conta paga, saímos do restaurante e pegamos outro taxi, desta vez até um local mais reservado.
Pedi uma suíte com sauna, hidromassagem e o que mais o dinheiro poderia pagar. Não pude me conter e já comecei a devorar seus beijos, antes sequer de cerrar a porta. Uma cama espaçosa, à meia-luz, tratei de despi-lo e me despir. Fizemos amor umas duas vezes antes de irmos à hidromassagem. Fizemos amor novamente na hidro, depois na sauna, depois de volta à cama. O clima estava em absoluto gélido e isso me excitava. Poder abraçá-lo enquanto ele tremia de frio, sentir seu corpo rijo, tentar em vão aquecê-lo, seus olhos enevoados. Tudo tão fascinante! Liguei o aparelho de som que havia lá e começamos a acompanhar as músicas, todas miraculosamente escolhidas conhecidas e pensei ser um sinal dos deuses para não continuar. Fizemos amor mais umas duas ou três vezes.
Logo, ele dormia enquanto eu o mantinha abraçado. Enquanto dormia, eu beijei seus olhos e o amaldiçoei com a maldição da paixão. Não fiz somente isso, amarrei sua alma para que ela não escapasse e para poder encontrá-la mais facilmente dei um nó dourado em seu tornozelo - Nada disso ele acompanhou pois já estava sob feitiço. Le Petite boisson, comecei por aqui.
Era um delicioso aroma acompanhado de uma textura singular, fantástico, doce, limpo, nada das impurezas que costumamos encontrar. Não havia nada de mal naquela criatura. Acabei me engasgando com tanta fluidez e mesmo se tratando da pequena bebida, o sangue parecia querer vir para dentro de mim, como se inconscientemente ele quisesse se ceder a mim. Dei uma pequena mordida no meu dedo indicador e curei sua ferida com meu sangue, por hora.
Ele ainda torporoso pelo feitiço, mas por vaidade o mantive numa semi-consciência. Delicadamente o levei até dentro da banheira e o deitei lá, deixei que uma pequena parcela de água quente caísse e o aquecesse - indiretamente, me ajudaria a sorver o que queria. Parecia uma marionete e seus olhos me acompanhavam, mesmo não entendendo o que acontecia. Agora, instalado, rasguei seu pulso e tratei de beber, aquele sifão jorrava para dentro de mim, cálido, limpo, vivo, vermelho. O que escoava, caia na banheira e se mesclava à agua, dando um tom róseo digno de um alvorecer. Foi a imagem que coloquei em sua mente enquanto bebia. Rasguei seu pescoço e bebi, depois seu peito deliciosamente esculpido. Era tanta bondade e ingenuidade que num pequeno acesso de descontrole, acabei destroçando seus ossos da base do crânio e parte da sua espinha dorsal ficou presa à minha mandíbula: Havia quebrado meu belo boneco. Ora, o que fazer então?
Uma vez quebrado, arranquei seu coração pois precisava vê-lo, saber que existia mesmo um naquele corpo. Facilmente o retirei e bebi diretamente dele, enquanto batia, ao mesmo tempo querendo se entregar e manter sua vivacidade. Depois de bebê-lo e seco em minhas mãos, esfarelei-o e sujei meu rosto com ele, logo, precisando ser mais rápido antes que o sangue parasse de circular, comecei a mutilação de membros, trazendo-os todos à minha bebida. Arranquei seus braços e pernas, o crânio já estava partido.
Na banheira, no final, sobrou apenas um monte de massa e uma pequena dose de vida, misturada à água. Eu, satisfeito, me permiti descansar um pouco enquanto a música ainda oscilava entre o que eu podia ouvir e o que eu via da própria vida sofrida de minha vítima. Eram exatamente três e cinquenta e nove quando liguei para a recepção e pedi um taxi. Deixei pago pelas próximas 24 horas e a recepcionista pareceu intrigada, disse-lhe que houve uma emergência de família mas que não queria incomodar meu companheiro, que estava adormecido, pedi para que ela o acordasse por volta das duas da tarde e dissesse que precisei partir, mas que já havia deixado um recado junto aos seus pertences, para o caso dele se preocupar. Antes de sair, apaguei minha imagem da sua mente e o taxi me trouxe de volta até em casa, onde continuei acordado até que meu inimigo mortal apontasse no céu. Intensamente extasiado e feliz, como sempre fico, quando estou bêbado de bondade.
O Vampiro e o Helianto
Se amanhece, aqui estou a selar tua fonte
Com o beijo que marca que te protejo
E, se escurece, me falta tanto um rumo
Que me perco em memórias [...]

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