Tenho pensado nas coisas da vida e como acontecem para conosco. Palavras, ações, cada ato julgado, cada atenção refletida e o que pensamos estar sob nosso controle, acabamos, deixando no controle de outrem. Estas mesmas ações são atuadas, previstas, criadas para nosso afeto mas podem ser tanto destruídas como aplaudidas.
Talvez nada faça mais jus à misantropia do que a extrema necessidade de ser aceito.
O que acontecera há alguns dias foi apenas a comprovação do que eu precisava para reforçar minha necessidade de escrever: atenho-me aos fatos:
1. Há alguns meses, mais especificamente na véspera do meu aniversário há dois anos, conheci pessoalmente um certo jovem que vinha trocando correspondência eletrônica e telefonemas. Já nos conhecíamos há talvez três ou quatro semanas antes quando arquitetamos o plano de nos encontrarmos. Um desconhecido, que atiçava minha necessidade de comprovar a intensidade do meu próprio relacionamento - é, eu sei, pode parecer traição, mas o que será contado é apenas parte do que aconteceu e não, não houve traição física neste encontro. Apenas dois homens bebendo bebidas alcólicas durante toda uma noite em um posto de gasolina. Ele tinha namorada - isso, namorada - mas se sentia inclinado à relacionamentos com outros homens. Tudo isso eu sabia pois fizemos questão de sermos sinceros um para com o outro, na maioria dos fatos. Em resumo, passamos a noite juntos conversando e acabamos trocando opiniões um acerca do outro. Muito ele falara sobre mim: minha beleza, minha intelectualidade, minha intangível personalidade, minha estranheza para com a noite e com as bebidas (eu não consigo inebriar-me, de maneira alguma) e, por fim, minha atenção aos escritos. O que eu gosto de deixar registrado para o mundo. Tentei explicar a ele sobre a incongruência do que escrevo-penso-exponho mas acho que ele não compreendeu pois sua frase - a que ficou marcada e dá título a este devaneio - foi "se você escreve para si, não seria melhor um diário? Por que compartilhar suas pessoalidades se não há interesse de mais ninguém a não ser o seu próprio. Não acredito que você viva num ostracismo tal que precise relatar sua 'viagem' por este mundo estranho". Neste momento, pensei em muitos amigos que já se foram e nos que ainda tenho. Amigos, não colegas ou conhecidos, e o quanto isso afetaria a eles tanto quanto a mim. Pensei em Hemingway e sua necessidade constante de descrever todas as minúcias de tudo que havia; pensei em Agnes e sua intelectualidade religiosa dada a explicar o deus-uno sob todas as suas formas; pensei em Aristóteles e suas evidências da presença da Constância Adquirida; pensei em amigos menos famosos que portam algumas doenças peculiares como a Esclerodermia Sistêmica[1], a Cinestesia[2]; pensei nos amigos que não podem ver, ouvir, falar; por fim pensei nos que não aprenderem o rebusco e o requinte que há na poesia e na prosa antiga. Pensei no que eles perderiam se eu me mantivesse a guardar tudo o que vejo, sinto e descrevo apenas para mim. Percebi que um completo desconhecido pode julgar com a mesma facilidade com que se entregaria. O mais fascinante foi que o mesmo jovem, ao decorrer da noite, se disse maravilhado com minha forma de expressão que definia seus sentimentos melhor que ele mesmo poderia se definir e encontramo-nos numa Teia. Ele repreendera meu estilo e, posteriormente, me elogiara pelas descrições. Paradoxalmente excitante!
Falei um pouco da nossa situação na época, antevendo, justamente o que queria para que, dado ele ao julgamento e tendo sido contada parte da história inicial, como poderia ele julgar algo? Bem, finalizando (por que quando começo, termino), nos despedimos naquela manhã e nunca mais nos vimos.
2. Mais recentemente, um pequeno desentendimento me fez voltar à esta tecla: descrições. Por que, segundo dados levantados, me excedo em descrições? Acaso as pessoas já não sabem o gosto da pêra sem que que eu conte como são arenosas, adstringentes, suculentas e com um aroma que lembra a infância coletiva?
Em meus contos, faço questão de detalhes. Por quê? Porque não escrevo somente para mim e sim para todo aquele que vier? Porque de uma forma grotesca preciso mostrar minha visão do que descrevo? Porque simplesmente não sinto as coisas tais como são? Serei eu uma vítima destas mesmas doenças que meus amigos sofreram? (Fato que uma comorbidade me assola e está descrita inclusive, uma visual, que até então só causa-me mais embaraço estético do que realmente afeta minha concepção do mundo e/ou reduziria minha acuidade visual).
Até então, quando digo contos digo toda e qualquer literatura que exponho porque me escondo atrás e através do que escrevo - é minha Zona de Conforto como diriam. Revelo o que sou e o que fui pelo que escrevo. Porque deveria me sentir culpado então se dissesse como era ardente o odor da antiga Roma na época em que eu vivia por lá, oculto? Porque não seria interessante, para os que não tiveram a mesma experiência, saber como é adormecer sob a terra nevada de uma montanha? Ou - aqui seria rotulado como pedante - mostrar como o amor e outros sentimentos podem fazer nosso coração estalar pela simples presença do ser amado? Minúcias são minha forma de ver o mundo, talvez seja minha forma de compensar aqueles que não podem, por um motivo ou outro.
"Use os olhos como se fosse ficar cego amanhã. (...) Escute a música das vozes, o canto dos pássaros, as poderosas notas de uma orquestra, como se amanhã fosse ficar surdo. Toque cada objeto como se o sentido do tato fosse lhe faltar amanhã. Sinta o aroma das flores e o sabor de cada bocado de comida como se amanhã já não pudesse cheirar nem sentir o gosto de nada."[3]
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| Bertil Nilsson from site homotography.blogspot.com |
O que persisto é, imponderavelmente, desnecessário e por isso volto a escrever. À minha maneira, não importa o que pensam os outros a respeito da minha escrita porque, hora ou outra, alguém vai se encontrar no mesmo sentimento que eu e então para este eu fiz uma ligeira diferença dos outros. Resiliência, eis o segredo!
[1] Esclerodermia sistêmica é uma patologia reumática onde o acometido possui uma degeneração gradativa exponencial das sensações do tato. Logo, a pele vai se tornando mais rija, insensível e não incomum é surgirem áreas grossas, com alta densidade de epitélio, similares à constituição de minerais. Leva também o paciente à tetraplegia flácida - impossibilidade de locomover qualquer dos membros. Geralmente, letal.
[2] Cinestesia, geralmente em crises e raramente como uma condição constante, é um reflexo do cérebro quando 'troca' as informações organolépticas por algum ruído neurossinápticotransmissor. O paciente é afetado por uma sensação de desequilíbrio e sentidos alterados. Literalmente, começa a enxergar com o olfato, ver os sons, sentir na pele os odores. Não letal.
[3] Hellen Keller - ativista americana cega, surda e muda.

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