3.21.2013

Sobre o "Tratado da Imortalidade"


Faz tempo que estive com o Tratado da Imortalidade sob minha posse. Muito tempo. Trata-se de um compêndio escrito há tanto tempo que se perde na eternidade. A língua empregada já era considerada morta quando os humanos vieram com seus primeiros hieroglifos. A julgar pelo que descreve, vem perambulando de raça em raça e tempos em tempos desde os primórdios pelo que conta. Não se sabe ao certo quem(quantos) escreveu(ram) mas sabe-se que o(s) autor(es) não pertencia(m) à classe humana. Ao menos não efetivamente pois no seu 'breve' relato inicial, nota-se a passagem de mais de dois mil anos e, excetuando alguns personagens no Livro de Constantino, nenhum humano viveu tanto - continuando humano, claro. E que era um visionário, que o manteve em posse e sempre atualizando-o conforme os milênios iam passando. Não se sabe inclusive que poder o escritor teria ou de que raça ele seria, só sabemos que é um dos Antigos e isso basta.


"Não adianta existir para sempre se não se é poderoso, belo, forte e incógnito. Não busque o reconhecimento pela sua juventude eterna pois, além de ser invejável a eles é perigoso para nós. Não nos ferimos como eles mas, juntos, eles podem nos enfraquecer." 
O Livro fala basicamente sobre como sobreviver aos anos, mas não é em si um manual. É mais como um diário de ensinamentos e, como não sabemos a origem, não podemos afirmar pelo quê e para o quê fora criado. São quatorze mil páginas de uma filosofia obscura, pregações e reafirmações, todas em terceira pessoa (mesmo sendo um diário). O escritor provavelmente deve ter começado com esta intenção pois lemos sobre seu nascimento, criação, adolescência, fase adulta - aqui um salto espaço-temporal - e logo em seguida seus devaneios. Por vezes, parece que ele fala consigo mesmo. Descreve espécies, raças inteiras, sua convivência com elas e inclusive a criação de algumas delas.
"Não somos como o Povo das Sombras: eles não têm formas e são subjugados pelo amanhecer. Não são conscientes como nós e não podem procriar. Nós podemos tomar a forma deles mas eles não a nossa. Nós podemos viver o caminho deles mas eles não o nosso. Eles são criados a partir do Todo e nisso não competimos."
Muito interessante de se ler e mais ainda de revelar que outros vieram antes de você e descreveram um mundo que, mesmo sendo um antigo mundo, é digno de ser recordado. É quase como eu e muitos outros fazem, mesmo tendo nossos Escribas oficiais.

Percebo hoje, após muitos anos, que o Tratado deveria ter permanecido comigo. Não deveria tê-lo entregue.
"Crer em deuses é crer em nós mesmos, Nós somos deuses. Eles vieram de Nós, muito antes de existirem os rótulos. E somos demônios também, pois nem todos nós caminhamos na Escuridão. O mais importante é que somos o que queremos ser, independente do Ӕon e concepções." - acredito que isso era uma das mais recentes citações do Livro
Talvez se ainda o tivesse, poderia compreender os fatos que têm me acontecido mais facilmente. Esta abstinência, este pavor, estes sentimentos mínimos, esta sede. Poderia apaziguar lendo como já fiz antes, por tanto tempo. Parei minha existência para me acercar do que havia no Tratado. Hoje, assim como antes mas diferente, tenho amores corrompidos, visões turvas, rancor, fascinação, desejo, sentimentos que antes eu conseguia controlar. Até a sede era controlável. Não consigo mais suportar uma decepção que nem deveria existir! Não tenho mais aquela solidão benigna de antes. O mundo acabou me corrompendo também, como eu temia.
"Se um dia tiveres de escolher entre o amor ou o poder, escolha o poder. O amor é medido, contemplado de forma impregnada, vivenciamo-nos pelo tempo que perdura a chama, enquanto dura a companhia. Quando isso se vai, a chama apaga e a escuridão parece ainda maior. O poder é eterno e por ele você sempre será lembrado."
É fascinante como este mundo atual pode convencê-lo de que você já possui tudo o que pode possuir.

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