4.02.2013

Apenas mais um desavisado que cruza o caminho, de quem não deveria cruzar


Faz exatamente três semanas desde que aconteceu e por isso, a frescura em minha mente, consigo narrar com clareza que chega a surpreender meus sentidos.

Andava eu por uma rua muito conhecida, a esmo, sem uma real necessidade de caminhar e, por mais incrível que pareça, sem sede ou vontade de caçar. Era uma noite comum, de uma semana comum, com sentimentos comuns, até então. Havia sonhado com pessoas que eu já pensara ter esquecido e sentido um aroma conhecido. Estava eu em um certo tipo de depressão. Claro, nada fora do comum. Havia suplantado a ideia de caçar àquela noite porque me imaginei completo de emoções que eu não conseguiria suportar, infelizmente. Quanto mais o tempo passa mais ficamos indispostos à Sede, mais indiferentes também. Ela não nos afeta como aos jovens na necessidade da vitalidade, passando a ser algo mais como costume do que como constância. Andava eu por uma rua conhecida, já a altas horas da madrugada.

Chegando em um cruzamento estreito das ruas, famosas, à beira-mar, fui interceptado por um jovem, de aparência flácida e doentia, pálido, torporoso e com um cheiro de matéria belicosa. Algo no espírito daquele homem me incomodava, no seu olhar. O ignorei de imediato, mantive-me em postura e acidentalmente, com o impacto, ele caiu. Com o impacto e por sua negligente maneira de andar, acrescento. Em vez de se desculpar, ele ousou olhar-me diretamente aos olhos, confrontando minha figura. De repente, sua tez pálida se tornou ainda mais pálida – acidentalmente devo ter incendiado meus olhos. Porém, mesmo com sua reação, a apatia pela matéria que ele havia ingerido o coibiu de correr ou processar aquela informação como perigosa. Então ele abaixou a cabeça e estagnou. Dei mais alguns passos adiante, não tinha intenção de perder tempo com reles protótipo de humano. Quando do meu decimo ou undécimo passo, voltei-me para trás pois ouvira uma preposição que provavelmente entenderia como um chamado. Ele não estava só, haviam com ele mais duas moças e um rapaz, ambos passaram então a me seguir após o chamado dele. Situação desconfortável, asseguro, ser perseguido intencionalmente por alguém que não compreende o que se passa e justamente numa noite em que resolvi não mandar mais uma alma ao Scheol. Desconfortável para ele, que buscava a morte em um dia em que ela pensara que tiraria folga. O ignorei novamente e mantive o passo, sem altercações. Ele, por fim e após um prolongado esforço físico, agarrou-me a mão intempestivamente, deixando-o em situação ainda mais delicada. Estranhamente naquela noite meu humor era complacente com a ausência de sede, então não o matei imediatamente. Mais uma vez, sorte dele.

Virei-me e o encarei, reforçando em minha mente que aquela noite deveria permanecer apenas nostálgica como começara, não haveria sede ou fome e tampouco uma morte desnecessária – era o que eu pensava até então. O assunto dele era hilário, o que ele pensara em dizer. Estava prestes a achar que seu golpe daria certo comigo. Como não estava para humor mas também não estava para a dor, acabei achando que uma brincadeira seria a distração que eu precisaria. Pensei em fingir até que ele desse por satisfeito e fosse embora, me deixando na paz merecida – claro, se ele realmente conseguisse sobreviver. Questionou-me veementemente sobre o nome, que não revelei, e disse que tinha a certeza de que me conhecia. Não se recordava de onde, quando ou como, mas sabia que me conhecera em uma situação que no mínimo era degradante para mim. Apenas reforcei que não o conhecia de onde quer que fosse. Enquanto tudo isso acontecia, seus amigos estavam a apenas alguns metros de distância, acompanhando, talvez ofereciam o suporte necessário caso ele precisasse. Ou não. Numa situação de perigo, geralmente os humanos correm em direção contrária ao que acontece. Aquele momento eu já havia me irritado e ele conheceria a morte em mim, decidi-me. E sorria por dentro.

Continuando a me inquerir sobre origem, inventando claro, e sobre nomes, acabou revelando que não me conhecia mesmo. Mas queria conhecer (até hoje não entendo como os humanos realmente chamam a morte). Começou então a segunda parte do jogo: a sedução descarada. Elogiou-me do cabelo à cor escolhida para o sapato, enquanto tentava através de uma simulação barata, se mostrar interessado nas minhas negativas. Pensava eu “- mas que desilusão perfeita para ele”. Prosseguindo, chegamos a etapa semifinal: a barganha.

Passado então este tempo em que as frivolidades eram as maiores armas, passamos para a arte da tentativa de convencimento do amor espontâneo. Não duvido que isso aconteça, já passei por diversas vezes por esta situação. Mas naquele caso, impossível. Já esgotado, cedi. Cedi à minha necessidade de fazer calar aquela criatura rapidamente, mas se possível, com o requinte de crueldade necessário para que isso me livrasse da sujeira que ele me trouxera. Aceitei seu pedido de casualidade sexual, por fim. Notei que ele usara seu telefone para sinalizar aos seus que “conseguira mais uma vítima” naquela noite, mal sabendo que a vítima logo seria a improvável. Novamente sorri, da estupidez e arrogância com que tratara seu velório adiantado. Deixei que ele me encaminhasse até onde pretendia mas acabei arrependido. Naquele mesmo beco em que ocasionalmente nos encontramos, havia um pequeno rendez-vous. Nos dirigimos até lá, seus amigos nos acompanhavam com uma certa distância.

Quase à porta, ele se desviou e, numa primeira tentativa infrutífera, sacou uma pequena faca que havia escondido nas suas vestes, na intenção de roubar-me. Achando que ia me intimidar, afrontou-me. Permaneci estático no mesmo lugar, apenas contemplando a cena toda. Tive de admitir que ele era determinado, vendo quanto tempo gasto para empreender aquela façanha digna de filmes de comédia classe C. Aproveitando-me que ninguém nos assistia, passei eu a intimidar: incendiei os olhos e novamente vi o terror nos dele, revelei as presas e sorri. Naquela hora ele se despediu de toda a determinação e coragem que havia tomado e não pensava em outra coisa a não ser fugir e se esconder. Mas, involuntariamente a isso e pelo medo e pela quantidade de drogas que havia ingerido, não conseguia se mexer. O espanto em seus olhos me excitava e eu sorria ainda mais alto. Ele apavorado, convocava todos os nomes de deus que conhecia. Rápida e furtivamente, nos retirei dali, subindo no mesmo prédio. Tão rápido que ele não poderia acompanhar e seu medo tornou-se algo tão surreal pela contestação que quase sentia seu coração parar dentro do corpo. Esquecera da faca em sua mão, esquecera de tudo o que havia visto, talvez amaldiçoara o momento em que decidira investir em mim, aquela noite. Seu corpo eliminava suor e por fim, suas secreções, quando eu o soltei apenas para que pudesse permanecer me encarando, sem conseguir fugir. Era quase palpável o terror que sentia e cada vez mais eu me excitava. Seu coração batia tão rápido que, se não explodisse, acabaria parando. E foi o que aconteceu, acabou parando. O medo escoava em suas veias, intoxicando-o, juntamente com a substância perigosa. Não foi forte, seu coração, deixando-o na hora em que ele mais precisaria. Acompanhei cada momento único, sorrindo, agora com mais calma. Seu corpo se batia no telhado, um som rouco saia de sua garganta, enquanto seu corpo eliminava excreções. Sua mente esvaziava aos poucos, mas numa intensa velocidade. Em menos de cinco minutos, sua alma havia deixado o corpo oco. Assim, nos despedíamos de mais um desavisado deste pequeno mundo.

Não ousei ajuda-lo, menos ainda me apeteceu o sangue. Primeiro porque era morto, segundo porque haveria de ser mais sujo que o Rio Tâmisa. Lá embaixo, ouvia as vozes dos seus amigos, que já àquela hora esperavam que havia cumprido o trabalho e se excediam em regozijos sobre o que fariam com o arrecadado pelo amigo. Já pensavam em mais drogas, bebidas e se possível, pagar um local para dormirem quando amanhecesse. Para terminar a noite, portanto, no melhor estilo, tomei-o e na mesma velocidade, subi às nuvens. Quando calculado e perto dos seus amigos, larguei o corpo. Pude ouvir, mesmo lá de cima, o som abafado que o impacto causara. Claro, ouvi também os gritos e choros dos amigos e dos transeuntes daquele local. Enfim, a morte se deu por contente.


"Não tenhais piedade dos caídos. Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo, eu odeio o consolado o consolador." Liber AL vel Legis
É um conto interessante, principalmente porque dentro das Cronicans, é um dos primeiros em que o sexo não é o foco principal e a bebida, o foco secundário.

Nenhum comentário: