6.12.2013

Vinho; e a estranha sensação de que não há verdade numa taça e sim hedonisno


Houve um sonho recentemente que envolvia estranhos sentimentos. Perturbados até eu diria. Confesso que a confusão deriva-se da necessidade de consumar algo que ainda não fora, mas que, simultaneamente, sabemos que não devemos. Após uma conversa breve, eis que a permissão para contá-lo havia sido dada. Talvez não o desenhe mais com tanta exatidão, ater-me-ei aos fatos mais interessantes.

Era começo de noite, mas, com uma certa cor crepuscular pareando com o horizonte. Algo belo de se ver, que costumamos esnobar por ser tão efêmero. Havia uma enorme janela colonial de vidros delicados, por onde Nix era aguardada e observada. Do lado de fora, um enorme ipê-roxo exalando seu aroma inebriantemente tóxico, uma relva baixa e um pequeno lago ao fundo. Uma típica casa semelhante àquelas do interior dos países bascos, mas, pela flora identificado como não pertencente aquele local. No interior, móveis singelos, de madeira clara e cheirando a chá de condoendro. Notas músicas saiam pensativas e envergonhadas do aparelho de som, Ingrid Kertesi - a soprando - cantando Händel de forma divina. Sob a janela, no interior, dois homens conversavam, enquanto jogados na cama de lençóis vermelhos e, aparentemente, nus em pelo.

Havia uma intimidade palpável entre eles - não só pela questão de estarem nus, não - que chegava a impressionar. Eles eram amantes mas acima de tudo, amigos. Notava-se pela forma carinhosa que um falava com o outro e como um olhava para o outro. Eram ligados por mais do que apetite e isso era evidente. Após uma pequena afirmação que fez os dois gargalharem, um deles levantou-se da cama e, ainda nu, dirigiu-se até uma pequena mesa marmorizada que havia em um canto, tomando duas taças altas rubras e uma pequena ânfora, encaminhando-se de volta à cama e servindo-os então de vinho, que o outro acabou tomando. Poucos goles e ambos colocaram suas taças no chão, paralelo à cama e então, o que havia permanecido deitado aninhou-se no peito do que havia levantado.

Então a noite caiu por vez toda, cobrindo aquelas terras com seu manto e sua proteção. Não que eles precisassem, mas, deveras belo de se acompanhar.

Após um breve sono, o que estava aninhado deitou um beijo no peito do outro, despertando-o com sua delicadeza. O outro acordou sorrindo e retribuiu o beijo, elevando sua cabeça até sua altura, na cama. Da forma como os amantes fazem, os beijos delicados deram lugar a algo mais sensual, caótico, desesperado e num frenesi inconstante de lábios, línguas e mãos. Logo, o primeiro estava por sobre o corpo do outro, enquanto suas mãos abriam caminho para sua boca, no corpo alheio. Percorrendo cada espaço conhecido e desconhecido, cada pequena dimensão, lascivamente saboreando aquela carne e deliciando-se com aquele cheiro.

Com o limiar da tentação sendo alcançado, o primeiro então colocou o segundo numa posição confortável na cama, deitado com seu dorso apoiado em sua mão, espalmado bem acima do cóccix e o admirava por cima. Admirava seus olhos desejosos, sua boca delineada, sua pequena interrogação marcada no peito. Delicadamente pressionando sua intimidade com a própria e sentindo então a pulsação que deriva de corpos apaixonados. Tomado por aquela necessidade de consumir (então descrita anteriormente), ele suavemente ajeitou seu parceiro, apoiando bem sua sinistra espalmada e com a destra, tateando a coxa rija e exercendo sobre ela uma pressão para ajustá-la à sua recepção tranquila.

Naquela posição, inicialmente, o outro fora possuído, olhos nos olhos. Altercando calma e severidade, gemidos, risos abafados, pedidos, suor e saliva. Então, outras posições foram adotadas e em todas, a intensidade estava presente. Longos momentos se passaram até que, como que magicamente, ambos chegaram juntos ao ápice do prazer e misturaram suas essências. Com menos agitação, postaram-se um ao lado do outro e então sorriram, como se esperassem por aquele momento já há algum tempo. Tomaram mais de suas taças e se preparam para a longa noite que ainda estava por vir.

Provavelmente, esqueci-me de algum fato. Essencialmente, o que me recordo era isso. Talvez pela minha inconstância insone eu não tenha o aproveitado mais e agora me arrependo. Teria sido válido retomar o sonho, lógico. Quisera eu poder fazê-lo. Contei os fatos como me recordava, mesmo tendo sido uma narrativa breve que deixo agora, portanto, à sua avaliação.



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