Bem, não chega a ser algo digno de nota por enquanto, não até ser traçada uma meta a respeito do que pode ter sido relevante citar. É muito curto o espaço de tempo em que está sendo empregada, mas, como toda manifestação empírica deve se seguir, será comentada para incentivo pessoal de começo.
Há alguns dias, deparei-me com uma intercessão na vida em que, estagnado como estava nas questões intelectuais e oníricas, optei por ler. Li o que costumava ler quando mais jovem, HQs japonesas da minha história favorita. Encontrei um personagem que me fascinou deveras, assim como os anteriores a ele haviam me fascinado. Coloquei-me a recordar e a pensar. Na Índia, pela corrente do ascetismo - aquela na qual o senhor Buddha quase se perdeu antes de alcançar o Nirvana, quando jovem - diz-se que o Caminho da Salvação será encontrado ao deixar seu maior medo ou pecado, abstido, forma na qual, ao suplantar aquele desejo ou repulsa, será iluminado. Vimos então grandes mestres que pecaram pela gula, se sentando no meio da mata e padecendo de anorexia. Ou mestres que eram naturalmente belos e achavam isso como uma ostentação indesejosa, mergulhados em excrementos de animais, mutilações e lama. É uma corrente extremamente agressiva, sabemos, mas quando bem elaborada ainda parece justa aos moldes do século XXI.
Nesta história, conta-se que alguns guerreiros que seguem uma linha budista, se privam de um dos sentidos para conseguir concentrar sua energia. Um primeiro se privava da visão, um segundo era cego de nascença, um terceiro se privava dos movimentos de uma maneira geral. Um destes, mais antigos, se privava da fala. Achei deveras fascinante. Claro, sabemos que pelas suas respectivas magnitudes, eles se privavam dos sentidos organolépticos porém, pelo seu poder, conseguiam suplantar e substitui-los por algo mais intenso. Logo, era uma dualidade. Não tratarei desta questão. O que acontece é que eu realmente me impressionei e, como sempre, resolvi testar a lógica. Privar-me-ia da fala também ao máximo que pudesse.
Este guerreiros vivem num mundo infinitamente longe e diferente do meu (mesmo que vivam na minha terra de origem) então eu teria de maneirar onde poderia. Comecei traçando metas de como faria isso, depois, investi. Consegui proezas que antes supunha inimagináveis e me abstive da comunicação verbal por um dia inteiro. Por uma ironia do destino, acabei padecendo de uma anomalia fisiológica que, fatidicamente, deu-me um motivo para perdurar na abstenção do sentido. Parecia providencial!
Mais um dia inteiro sem sequer uma palavra falada. Logo mais um.
Infelizmente, não pude continuar na retidão absoluta das palavras, pela minha questão profissional e afim. O que me vale é que a técnica, antes impensada e até repudiada pelo que conhecia do ascetismo, valeu muito mais do que eu poderia imaginar. Tornei-me mais puro, mais seletivo nos pensamentos, menos disperso, mais intenso, mais íntegro, menos agressivo e rude, mais quieto e efetivamente um poder estranho nascia dentro de mim. Eu, pela minha origem, sou feito do Verbo que é criado e falado, logo, por esta essência, este empreendimento me pareceu uma deliciosa fuga e uma prazerosa maneira de me abster das origens.
Passado este tempo, ainda mantenho uma educação verbal. Esta experiência realmente me mudou. Tão logo eu possa, serei radical novamente e passarei dias a fio sem pronunciar uma palavra sequer. Quero ver até onde eu posso chegar na convicção e o quanto de poder eu posso acumular.
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| Shijima, Asmita e Shaka - Cavaleiros da Constelação Zodiacal de Virgem. O primeiro se absteve da fala, o segundo era cego de nascença e o terceiro se privou da visão. |

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