10.15.2013

Havia uma unidade disposta a partir


Havia um jovem que, certo dia, decido revelar seu mais precioso segredo, resolvera juntar seus entes queridos em uma reunião para isso. Convocou mãe, avós, irmãos, primos mais próximo, tios e tias e animais de estimação que eram considerados parte da família. Fez isso numa tarde de quarta-feira do Oitavo mês do calendário gregoriano – como exigia a regra (?!) estipulada pelos antigos escribas. Todos reunidos, sem expressarem a curiosidade evidente para a ocasião, estavam lá, aguardando. Passava pelas suas mentes revelações de cunho sexual, matrimonial, profissional, residencial mas nunca poderiam supor que seria deste nível.

Lá estava ele, chegando alguns instantes antes do que havia programado – beirando às dezessete horas daquela quarta-feira daquele Oitavo mês – com uma calma ímpar que não lhe rendia honra. Ele chegou, cumprimentou a todos e disse-lhes que estava honrado em recebe-los todos para sua declaração. Todos se entreolharam mas não ousaram arriscar as ideias. “- Bem” – Ele disse – “- É hora então de lhes contar o porquê de tudo isso”. Ainda dentro da sua calma ímpar ele o fez.

Dirigindo-se ao centro da sala, afastando os objetos próximos, ele cerrou os olhos e a energia oscilou. Havia uma tensão no ar, algo estático, que eles não compreendiam. Logo, uma luz o envolveu e cegou a todos momentaneamente. Do foco da luz, quando amenizada, surgia dois pares de enormes asas tão alvas quanto cálidas, de uma imparcialidade nunca dantes vista. Não se pareciam com asas de gaivota ou de falcão ou de águia ou de pássaro algum. Enormes asas, que preenchiam o espaço e aterrorizava quem estava observando. Metade dos espectadores altercava entre o choro e o desespero, uma parte louvava a seu deus nas alturas e uma parte simplesmente entrava em choque. Avô e avó jubilavam pela glória do senhor das nações, a mãe chorava em desespero, as tias apenas encaravam atônitas, as crianças sorriam e o que estava surgindo os contemplava. Ainda desabrochando as asas, entre a luz, ele observou para que não as tocassem. Perceberam então que a unidade que saia da luz era ele e não era ele, era algo diferente mesmo sendo ele, havia sua presença mas ela era irradiada mais além, havia também uma voz latejando em suas mentes. A roupa dele mudara para um conjunto de tecidos quase tão brancos como suas asas, porém menos etéreo. Havia uma coroa alojada em sua cabeça também, feita de luz e semblantes encrustados no ouro.

Elevando suas asas então, ele sorriu para eles. Disse-lhes que ainda era o mesmo que eles criaram, mas também era criatura do Altíssimo. Moldado por Ele, lá em cima. Antevendo seus avós – religiosos – ele disse quase num tom brincalhão que era ele a quem Ezequiel viu e descreveu, mas de uma outra maneira. Pela surpresa, seus avós hesitaram e ele, recitando as nobres palavras do profeta mostrou-lhes mais.

“Olhei e vi uma tempestade que vinha do norte: uma nuvem imensa, com relâmpagos e faíscas, cercada por uma luz brilhante. O centro do fogo parecia metal reluzente” – E se dirigia aos presentes – “Assim eram os seus rostos. Suas asas estavam estendidas para cima; cada um deles tinha duas asas que se encostavam na de outro ser vivente, de um lado e do outro, e duas asas que co­briam os seus corpos.” – E ao dizer isso, ainda mantendo uma distância segura, evocou mais um par de asas de seu dorso. A surpresa de antes ainda era a de agora, ao perceberem que ainda havia mais mistério naquela unidade. Logo, postado com quatro asas semiabertas, no meio de uma sala entre sua família, ele sorria-lhes com os olhos. “Quan­do os seres viventes se moviam, elas também se mo­viam; quan­do eles ficavam imóveis, elas também ficavam; e, quan­do os seres viventes se elevavam do chão, as rodas também se elevavam com eles, porque o mesmo Espírito deles estava nelas.” – E então evocou mais um par de asas: seis ao todo, todas brilhando e tremeluzindo, desassociando até a luz elétrica presente.

Havia um desespero entre os presentes, apenas a unidade parecia incontestavelmente segura de si. Tratou então de explicar-lhes o motivo, dizendo que era planos dEle que ele viesse mas que estava na hora de voltar, por isso, achando por bem trabalhar com a verdade e por amá-los, se expôs. No seu íntimo sabia que logo eles esqueceriam dele, como a regra também diz, mas resolvera arriscar. Dizendo isso, encolheu as asas e disse-lhes que poderiam tocar se quisessem, para comprovar que ele era real – como se necessitasse, depois de tudo. Explicou-lhes que era da Falange dos Serafins, anjos de fogo, que trabalham diretamente com o Elo e por isso os seis pares de asas. Contou-lhes que, mesmo entre eles, ele era especial. Era o braço direito dEle, um escriba e retalhou o assunto dizendo que era ele quem escrevia o Verbo. Seus avós entenderam a essência, os outros não. Contou-lhes que as asas eram sua ordem e sua arma e que são mais quentes que o sol por isso só tocariam com a permissão dele. Falou-lhes da sua idade, parte do que podia fazer e omitiu muita coisa mais.

Não havia ainda uma calma, uma tranquilidade, porém estavam mais conscientes e isso bastava. Havia choro e lágrimas, que logo seriam confortadas. Falou então da sua intenção, dizendo que uma das magnitudes da sua Falange era que, para cada pena de sua asa, havia um desejo e que entregaria uma pena para cada, para seus próprios desejos. Logicamente houve um desconserto entre eles, duvidando entre o que viam, o que imaginavam e o que poderia de fato ser real e palpável de tudo. Explicou-lhes detalhadamente que, conjunto a estes desejos, havia a responsabilidade do anjo, logo, caso desejassem algo mal esse mal seria revertido em culpa para ele. Isso, ainda nos dias de hoje, é a única coisa que pode macular a integridade das asas de um ser angélico. Havia o burburinho comum, esperado de fato, com os pensamentos voltados aonde conseguiriam ir. Nestes casos (não vou excluir os presentes disso) sempre o primeiro pensamento é a riqueza, nunca entendi o porquê. Deixou-lhes pensar durante alguns instantes, enquanto respondia superficialmente as perguntas como: então isso explica tudo, não?

Passado o tempo, ele se voltou a eles. Haviam oito pessoas entre eles – os que puderam estar presentes, havia uma intenção de repetir o fato ao outro lado da família naquela mesma noite – todos a família mais próxima que a unidade tinha. Oito pessoas: avô, avó, mãe, duas tias, irmã, primo e prima. Oito penas foram recolhidas da asa que estava mais próxima. Notaram que, para cada pena tirada, não havia sangue ou mácula ou espaço aberto. Era como se a asa fosse uma entidade em si, se mantendo. Chamou um por um para concretizar o que havia prometido. Seus avós foram os primeiros, desejaram – como matriarca e patriarca de uma grande família – sabiamente, a saúde de todos, inclusive a própria. Neste momento as duas penas sumiram e com elas toda fragilidade e doença que haviam em seus corpos, desaparecendo também todo conhecimento de como elas foram adquiridas. Deixando claro: o pedido era simples e a responsabilidade enorme, não haveria como oferecer a imortalidade quando se priva das doenças. Eliminar doenças existentes é um grande feito mas tornar os humanos imunes é ousado demais. O que havia foi eliminado por milagre mas não podemos simplesmente dizer que de agora em diante não precisarão se preocupar. Imaginem pessoas se jogando na frente de veículos sabendo que não podem morrer ou sendo descuidados com a saúde porque sabem que não podem adoecer. O desejo da mãe era mais detalhado, ela pedia a saúde da filha, do esposo, dos parentes e que a vida financeira desse certo e, neste momento, a unidade disse-lhe que, por estar deixando esse mundo, todos os bens que ele possuíra seriam passados a ela, ou seja, uma enorme quantia em dinheiro que seria suficiente para que não trabalhassem pelos próximos cem anos além de suprir todas as necessidades básicas e até moderadas de conforto. Novamente, não há como explicar a riqueza espontânea aos outros mas, ao saberem de um ente querido trabalhador e justo, que partira, a herança era algo previsto. A primeira tia pediu pela saúde do filho, do esposo e da família, além de que os planos fossem sempre observados para que dessem certo e que houvesse consenso na família. A saúde já estava prevista e a unidade disse-lhe que intensificaria a proteção da guarda dele, para todo o sempre. Tudo o que quisessem, se desejado de bom coração, seria deles. Seja o que fosse, bastasse a boa intenção. Também aqui, algo relativamente previsto. A próxima tia desejou que sua vida matrimonial voltasse a ser como antes, ele disse-lhe que o passado não pode ser desfeito mas que há um futuro pela frente. Que ela deveria batalhar pela filha e por si mesma, como um conselho. Ela não aceitou, queria o que julgava ser seu. A unidade tentou reconsiderar, mostrando-lhe como seria caso insistisse. Ela acatou, então a unidade deu-lhe o que ela amava. Ela não se importava com riqueza ou bens, apenas com sua perda. A unidade, ciente, disse-lhe que no dia em que ele encostasse-lhe a mão, ele seria fulminado por mil estacas porque estaria indo contra o primeiro pedido – o da saúde – e se ela arriscaria. Ela arriscou e então a unidade lhe disse que no dia seguinte o seu antigo consorte a procuraria. A prima desejou apenas felicidade e sim riquezas. A unidade disse-lhe que, quando se tornasse maior de idade, ganharia uma recompensa inesperada e que – até lá, seria responsabilidade de sua mãe e, como ela não pediu riquezas, seria como sempre foi mas que, quando respondesse por si teria tudo o que quiser. O primo desejou riqueza também e, por ser já maior de idade, a unidade disse-lhe que ele seria rico e aconselhou a saber usar o dinheiro ou o mesmo mal o arrastaria de volta. A irmã, a última em que a unidade havia depositado esperança, recusou o desejo pois disse-lhe que todos já haviam pedido o que deveriam pedir e que ela estava satisfeita com o dinheiro que chegaria.

Assim, as oito penas foram usadas em prol do bem maior.

Eles não notaram que a unidade parecia recolher-se em si, enquanto pediam. Ele apenas observava, com suas asas encolhidas farfalhando, aguardando e explicando desejo por desejo e como faria acontecer. Por fim, ele disse que precisava se tornar homem novamente, recolheu as asas para si, com a calma já quase instalada entre os presentes, e que precisava descansar. O clima etéreo e fantástico se encarregava de fazer com que todos achassem que estavam em um sonho ou algo parecido então boa parte das explicações eram desnecessárias. Disse-lhes a unidade que repetiria o gesto, pelo outro lado da família pela justiça uma vez que também o criaram mas que eles não se lembrariam do que acontecera ali de uma forma clara. Todos os desejos iam sendo realizados e eles saberiam o porquê, mas não conseguiriam contar a história adiante e aquele jovem, que pertencia a família, seria tido como alguém que se foi apenas. Parecia que todos estavam cientes disso. Logo, a unidade recolheu suas asas e se tornou o mesmo homem que chegara ali algumas horas antes. E então notaram que haviam lágrimas de sangue em seus olhos, que transbordava. A visão causava dor e constrangimento, culpa, remorso e náusea. Sua avó perguntou-lhe se “aquilo” significava que ele estava chorando e ele assentiu. Todos imaginavam a dor que ele poderia estar sentindo por ter de partir.

Ele concordou que chorava por esta dor, porém como que, usada pelo Santo Espírito, sua irmã interveio. “- Espera ai, você precisa mesmo ir embora?”. A unidade disse-lhe “- Se algum de vocês tivesse desejado que eu ficasse, eu poderia ter ficado”. E partiu.

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