Algumas vezes eu penso que só me sentiria bem após lutar ferozmente contra um demônio.
Digamos que eu não tenha mais nada. Não seja mais nada. Não esteja desejando mais nada. O que me sobraria além do nada? Rancor? Provável. Ao pensar que não adquiri a experiência necessária para evitar (ou ao menos postergar) uma nova morte em vida, posso começar a pensar em punição. Dias e horas passam devagar, enquanto divago sobre um novo horizonte inalcançável. Cometerei os mesmos erros novamente, isso é evidente. O que eu faria diferente desta vez? Foi-me dito que um monstro só paga pelos seus próprios crimes mas não creio que seja a mais pura e real verdade, afinal, pagamos pelos erros que cometem contra nós e cometem por nós – até exponencialmente mais severo.
Pensei não haver vestígios da mágica em mim e assim me enganei mais uma vez. É fatal essa atração! Pensar que eu posso realizar qualquer desejo daquele que me procura mas não posso realizar o meu próprio.
Em um mundo perfeito eu teria companhia, cumplicidade, afeto, carinho, retribuição e conforto. Neste atual mundo real eu não tenho nada e ainda tenho responsabilidades. Quando me coloco a observar-me por outros olhos vejo o quão assustadoramente atractivo eu sou. E isso me refrigera a alma. Em um mundo perfeito eu poderia voltar atrás e desfazer todo o mal que eu acidentalmente cometi e não precisar pagar o preço agora. No mundo real eu pago, infinitesimalmente mais caro. Num mundo perfeito, cada pessoa teria sua própria opção e eu não estaria envolto nestas escolhas. No mundo real eu sou um pilar e um foco para as decisões alheias, como se em mim houvesse uma bússola cósmica que mostra as direções de cada destino – ainda que a contragosto. Em um mundo perfeito eu não precisaria estar escrevendo para o vazio, poderia estar conversando com alguém que se importaria em devorar até a última palavra do que eu dissesse.
Não há muito perfeito afinal, Buer já me dissera certa vez que "o mundo perfeito seria aquele em que as pessoas percebessem que não veem a si mesmas e sim suas sombras apenas".
E eis que então eu sofro sozinho mais uma vez.
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