Então já se tornara um sábado noturno quando eu recebera a mensagem de que 'ele' iria festejar na rua, com amigos. Não estava em minhas mãos impedir, evidente, mas estava em minhas hábeis mãos fazer desta noite algo memorável e inesquecível, em seu leito de morte.
Esperei que a Lua se tornasse plena no céu, havia um frio peculiar para aquela época do ano, algo que excitava os mamilos e fazia o hálito se tornar mais vibrante e desejoso de companhia. Percebendo que ele havia saído, preparei-me para fazê-lo também. Usando de um subterfúgio, percebi seu trajeto e também o fiz insinuando que queria estar no mesmo local que ele, apenas com momentos de diferença. Momentos vitais que haveriam de se tornar nossos últimos naquela noite. Percebi então que ele havia chegado: uma boate comum, com pessoas comuns, aquele cheiro da promiscuidade comum que atrai almas comuns. Não esperava algo diferente vindo dele afinal. Ele chegara com suas companhias e logo trataram de se acertar no local – tudo isso eu observava de muito longe, ainda. Deixei que eles se divertissem tempo bastante e então, lá por volta das duas da manhã, eu me dirigi ao mesmo local. Fatalmente vestido e perfumado, olhos reais, com a essência negra como de costume. Se alguém me perguntasse como cheguei ali, diria calmamente que alcei voo como habitual, pousei onde era menos observado e por um truque coloquei imagens falsas nas mentes dos que poderiam ter visto algo suspeito na minha chegada.
Minha figura ainda causava algum frisson, onde quer que eu fosse. Pois bem, tomei a precaução de estar no mesmo local sem me deixar ser visto por ele ainda.
Evitei a multidão com a cautela necessária, escolhendo um local mais escuro para me instalar. Homens e mulheres admiravam o que viam e eu ignorava a todos, também como habitual. Hora me dirigi ao bar, paguei por uma bebida e voltei ao negrume da boate. De longe eu o observava, feliz, espontâneo, quase uma bela imagem se não fosse por suas intenções que já exalavam e um nariz treinado como o meu, captava. Pois bem, dada a hora dos demônios, eu resolvi começar a agir.
Deixei a escuridão do meu canto e lancei mão dos artifícios para esconder minha real personalidade, deixei homens e mulheres tortos ao se virarem para acompanhar meu trajeto, suas bocas babavam, seus membros falhavam, seus medos afloravam e por vez ou outra eu ouvi aquela palavra que define a minha raça. Durante este pequeno percurso, beijei lábios desconhecidos, vários, deslizei minha língua por vários pescoços e ombros, minhas mãos conheceram caminhos naquele caminho. Me deixei ser a imagem e a ação da própria alma do local, libertino, promíscuo, luxurioso. Era fascinante perceber as reações. Cheguei então até defronte a ele, que me olhava com olhos arredios, quase afrontosos, reconhecendo em mim a pessoa com quem falara várias vezes. Era uma mescla de prazer, medo, desejo e resiliência e eu admirei esta última qualidade. Havia uma confusão instalada em sua mente quando eu lhe disse que havia percebido o caminho que tomaria e resolvi fazer o mesmo, como surpresa. Ele balbuciava algo como "não deveria" e "como me encontrou" e eu ignorei, beijei-lhe a boca ferozmente enquanto todos os seus amigos observavam, atônitos. Não me refreei e beijei cada boca que ali naquele círculo se encontrava, deliciando-me com cada prazer único e conhecendo cada alma, evidente, deixando um rastro de confusão nos seus olhos. Parecia um flagelo recém-formado, sedento por prazer, hedonista. Voltando a ele, disse-lhe em tom lúdico que estaria ali para vigiar suas ações, ciente de quais eram elas antes mesmo de se pensar.
Depois de beijar a todos e em todos deixar minha marca, tomei-lhe pela mão sinistra e partimos daquele ambiente para um mais escuro ainda. Evidentes eram os olhares que nos acompanhavam até o andar superior, que era aberto, daquela boate. Ao lá chegar, disse-lhe que estava ali para que o desejo fosse consumido, que não houvessem freios, que os rompantes fossem exacerbados pela emoção e luxúria. Falei enquanto percebia em seu olhar um misto de pavor e necessidade. Por fim, sentados em um banco improvisado, contei-lhe sobre meus planos para aquela noite e ele aceitou. Logo, pensamos em deixar aquele local, juntos, para um melhor. Voltamos, vi quando ele se despediu de seus amigos dizendo algo em seus ouvidos e compartilhando de uma ironia jovial – lógico, ele sabia que acabara de ganhar a noite e que um dos seus desejos carnais seria consumado. Achei graça também, pelo advento.
Dirigimo-nos à saída.
À porta, tomamos um carro que nos deixaria no destino. Porém, na metade do caminho, à beira de um rio que cortava aquela cidade, eu induzi o motorista a parar. Disse-lhe que lhe faria uma surpresa, paguei ao motorista e encaminhei-o à uma viela escura. Passava em seus olhos lembranças de quando eu o assustava, contando sobre mim mesmo e ele sorrateiramente levava para o lado do humor – mal sabendo que meu câncer é falar a verdade em forma de brincadeira, para não parecer tão verídico. Já naquele momento eu não me importava com mais nada a não ser a vingança. Tomei-o no rumo daquele beco escuro, forçando-o. Encostei-o em um dos muros que nos cercava e estartei a beijá-lo. Mais e mais, mais forte, mais denso, mais violento. Notei que havia lágrimas irrompendo de seus olhos e seu medo congelava os movimentos, ele já imaginava o que estava por vir. Deixei-o com este pensamento latente. Como um gesto de misericórdia, parei um instante para delicadamente conter uma das lágrimas que escorria e foi quando ele disse-me "eu sabia que era verdade, sabia bem lá dentro de mim que ainda havia a possibilidade disso ser verdade". Disse-me, referindo-se à minha condição inumana. Concordei com um sorriso aparente e um olhar marmorizado, já antevendo que as pupilas tomavam a cor rubra deliciosa que advém quando começo a me alimentar. Não havia percebido, entretanto, que já tomava pequenos goles de sua essência quando por exagero da força, machucara seus lábios nos beijos. Ainda posso ver seu jeito infante, seu sorriso cálido, sua alegria em viver ainda que numa vida moldada em vitríolo. Percebia que o ameaçava tal qual uma serpente encurralando uma lebre e isso me excitava. Profundamente. Mesmo não havendo desejo sexual eu o violentei, molestei seu corpo frágil e delicado com o meu bruto e rude, até que sangue brotasse de suas entranhas e ele urrava de dor. Tomei daquela carne como tomei daquele espírito, ferozmente, como o animal que sou. Quando já exausto da violência sexual, voltei à violência emocional, ele já à esta altura seminu, sangrando, choroso, sujo, maculado. Era tão fascinante que queria fazer daquele momento ad-aeternum. Interessante como ele não implorava por sua vida, provavelmente já imaginava que não funcionaria comigo. Porém, também, devo confessar que por um momento pensei em deixa-lo. Bem, ainda que não o tenha feito, dei-lhe a paz eterna. Cansado, tomei-o com uma das mãos, alcei seu pescoço até minhas presas e bebi dele, irrefreadamente, querendo acabar logo com aquilo. Agora, se tratava de mais um corpo quebrado, exangue, sujo e que eu mesmo maculei e entalhei. Acabei me divertindo ainda mais quando parti-lhe os membros, um a um. Esquartejado, deixei suas partes jogadas às margens daquele rio, tomei voo e voltei à minha morada: satisfeito, por ter conseguido mais uma vez provar para mim mesmo que não sou mais um anjo e que posso sim ser o que quero ser, quando quero ser, com quem quero ser.
Na noite seguinte, como habitual, li nas manchetes sobre o incidente do "corpo esquartejado encontrado" e que se supunha "ser vítima do mal social" que afligira a humanidade. Ele agora habitaria em mim e este era um bem que eu acabei fazendo-lhe sem intenção.
Para a maioria dos homens, dor significa ódio, e ódio significa vingança. //Paolo Mantegazza
A vingança é uma espécie de justiça selvagem. //Francis Bacon
A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa. //Pierre Marivaux

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