10.04.2014

Eu respiro, afortunadamente



Cada dia parece mais eterno que o anterior e me pego pensando no que vale a pena investir após todo este tempo passado e esta perseverante ausência de sentimentos que me ronda. Percebo que não há mais para quem voltar. Não há o que começar ou o que acabar, tudo está feito e de uma maneira que não permite reparo. Passo meus dias contabilizando perdas e anotando datas, para que não as esqueça porventura. Creio até que eu queira esquecê-las de fato!

Vejo pessoas fortes acabarem neste mundo e vejo pessoas fracas se absterem de viver. É um pesar no espírito perceber que a humanidade subjuga a si mesma com tamanho empenho e com tanta vicissitude, não a mesma que poderia usar para se tornar melhor. É um cansaço que refrigera a alma, como sempre.

Perceber que se está só no mundo não é algo mais tão primal. Criar um mundo paralelo e nele também estar só, sim. Faz-te perceber que não é a ausência de pessoas no teu sonho que o destrói e sim querer por esta ausência. Dói a cabeça e dói a alma, assim como sangra, não há mais o que dizer ou pensar. Como um hemomante, posso concluir que tão breve estarei sem meios uma vez que a humanidade está seca e permanece sedenta, porém, não dos prazeres a que se deveria preencher. É um quase desprezo pelo que vêm a seguir, justamente por saber que pode ser manipulado de tal forma que se torna imberbe o desejo de fazê-lo. Os corações humanos não são mais capazes de se manterem e ainda assim não se procuram.

Ég anda sem betur fer – Eu respiro afortunadamente.

De vez em quando, próximo à janela eu me coloco
Pensando no que poderia haver neste exterior.
Logo, sem me abster de uma decisão, percorro caminhos desconhecidos
Mas reconhecíveis, de maneira inata.
Vejo olhos rubros que acendem no canto escuro do quarto e percebo que miro o espelho,
Há ainda nestes mesmos olhos, flamas, que contrastam friamente com o que deveriam ser.
Flamas contrárias à cor que deveriam ter e que talvez tenham vergonha deste.
Quando levo as mãos a cobrir este eflúvio, percebo que não se passava de uma ilusão que
De uma maneira intrigante foi desenhada por mim mesmo.
Talvez meu coração esteja querendo dizer que não teme chorar. Ou que seu choro é improdutivo.

O fato é que a janela não parece mais tão distante do chão quando me aproximo dele de maneira impactante e rápida.





A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade. //Emil Cioran
Os deuses usam os loucos para testar os sábios. //Desconhecido

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