10.15.2011

Gaiman - O mundo das coisas ao meu redor

O Livro do Cemitério
GAIMAN, Neil


--
- Diga quais são os diferentes tipos de pessoas - disse a srta Lupescu. - Agora.
Nin pensou por um momento.
- Os vivos - disse ele. - Er... os mortos. - Ele parou; e depois: - Os gatos? - propôs Nin, inseguro.
- Você é um ignorante, neném - disse a srta Lupescu. - Isso é péssimo. E você está satisfeito em ser ignorante, o que é pior ainda. Repita comigo, existem os vivos e os mortos, existem as criaturas do dia e as da noite, existem ghouls e andarilhos da névoa, existem os caçadores das alturas e os sabujos de Deus. E também os tipos solitários.
--

Uma das melhores leituras deste século.

Mudanças


Mudam-se os Tempos, muda-se a vontade.
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo mundo é composto de mudanças, 
tomando sempre novas qualidades.

Mestre Camões


Confesso que me sinto mudado. Nos pensamentos, ações pequenas, ad amorem et expelia. Há algo de brutalmente novo em sentir-se confortado, seja com um toque ou com uma palavra doce orientada. Mais interações, menos rancor, mais projeções e planos a serem efetivados. Nova noite para abstrações. Lua cheia para contemplar. Trabalho a ser realizado para que a cama seja compartilhada. Nada é mais suave que a sensação do despertar.

Neste momento, ao bebericar do meu café envenenado, eu concluo: não há prazer sensato que me torne mais humano. Não nego o quanto preciso dele (e dela e disso) e não temo dizer a infinitude disso. Incentivado estou a escrever, ler, sentir o doce aroma da fútil intelectualidade que me atrai. 

Preciso do Sabujo de Deus. Preciso de mim mesmo. Preciso sentir os pêlos que roçam em meu peito. A carne branca de que me alimento e o sangue que esvai de suas costas quando eu as dilacero parcialmente. Minha sociedade para com os mortos exige de mim mais do que ofereço. E, não é por isso, que deixarei que parta. Preciso da rosa que se abre no meio das suas pernas, cheirá-la, prová-la, tomar dela.
Preciso forçar você contra mim. Nada seu pode ser escondido de mim, eu vejo o que quer que for, de onde estou e para onde vou. 

Minha delicadeza cai como minha máscara humana.


Engenho


"Meu encanto terminado, reduzi-me ao próprio estado, que é bem precário, em verdade. Agora, vossa vontade aqui poderá deixar-me ou a Nápoles enviar-me. Mas é certo que alcancei meu ducado, e já perdoei quem mo roubara. Por isso, não queira vosso feitiço que eu nesta ilha permaneça tão estéril e revessa, mas dos encantos malsãos livrai-me com vossas mãos. Vosso hálito deve inflar minhas veias pelo mar; caso contrário, meu plano de agradar será vesano, pois de todo ora careço da arte negra de alto preço, que os espíritos fazia surgir de noite ou de dia. Restou-me o temor escuro; por isso, o auxílio procuro de vossa prece que assalta até mesmo a Graça mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de todos vossos pecados, permiti que sem violência me solte vossa indulgência."

Lorde Próspero - A Tempestade, SHAKESPEARE. W. 

Milk Way


"Em cinco bilhões de anos, a Galáxia de Andrômeda vai colidir com nossa Via Láctea. Um novo e gigantesco mundo cósmico irá nascer."

O que será feito quando a decisão pedir a hora? Como permanecer e o mais importante, como aprender a reconhecer os prodígios que ainda hão de vir?
Eu hei nome Liberdade do Cemitério tão falado, pouco visto. Não há recomeço provável ou o que há não perdure. Não há uma estrada margeada de flores saltitantemente lustrosas ou ainda animais acompanhantes.
Há somente uma Treva bárbara que se torna presente ao pestanejar, sonhar com a amante cravejada de jóias raras ofertada como sacrifício.
Conquanto haja desgosto, suor, sangue e mácula fá-me-ei senhor do que mantenho.

Aos outros minha bênção.