1.01.2012

Ad amorem est infinitum


"There is no remedy to Love but To Love more."
Thoreau


O amo.

Não há nada mais preciso em mim do que o amor que consigo dispender a Ti.

Tu que me encanta, define, ensina, refrigera, acompanha, carrega nos braços do amor e mensura meu universo que carrega consigo. Preciso de Ti. Mais do que de mim mesmo. Canso-me de ser eu mesmo quando distante estou de Ti. Nunca precisei de razão para amá-lo, bastou conhecê-lo. Meu coração sempre sentiu que este momento chegaria mesmo que tardio.
No começo eu era o melhor amante, romântico, sensível, doce e preocupado. Mas o Tempo passou e acabei calculista e atento demais. Foi neste momento que Tu deixara de me amar. Tentei consertar mas acho que já era tarde, não imagina o quanto eu lamento. O perdi por algumas poucas vezes, a última parecia que seria definitiva. Graças aos deuses que habitam o céu e o mar, reatamos. Novamente eu criei promessas de um mundo novo e amores eternos.

E novamente eu cai no meu pecado.

Passei a contar os momentos contigo e a tratá-lo como algo que seria eternamente meu. Como um casal completando bodas de prata éramos, ultrapassando alguns momentos preciosos de nossas vidas. Considerava-nos este casal eleito que estaria junto sempre e assim, acabei ignorando algumas Leis de convivência com quem se ama. Passei a negligenciar muita coisa, a ser indiferente e ouvi-lo cada vez menos, remeti à frigidez e o romantismo seguiu vida na sarjeta.

Pereci enquanto estava com você, desejei dos piores venenos e das mortes mais épicas. Passei a viver sem mim. Longe de mim.

O mundo mudou, desculpas não são mais válidas. Novamente eu o perco e sem chances de retornar. Não há empecilhos, estão sendo ignorados. Meu longo amor antigo regressa ao meu coração, despejado do Teu. Livrei-me dos que me queriam mal. Mau, inclusive, e agora eles não mais serão sobressalentes à minha posição de pássaro meio-Homem inteiro a ruir. Nada me importa mais agora, nem perdões nem augúrios. Não há mais que se preocupar com ipsis custodietis ipsi custodis.

Ele está indo, eu permaneço. Nossa conversa não tem mais aquele tom de alegria porque sempre é carregada de queixas e invólucros de questionamentos. Não sorrimos mais com tanta frequencia e agora, então, não poderemos mais sorrir juntos. Nunca mais eu poderei sorrir porque além do nosso compromisso, você levou de mim seu amor. O meu continuará sempre disposto e ignorando outros corações além do seu.

Nunca mais amarei outro. Nem penso nisso.

Al Perderte
Ernesto Cardenal

Al perderte yo a ti
Tú y yo hemos perdido:
Yo porque tú eras lo que yo más amaba
Y tú porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
Porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
pero a ti no te amarán como te amaba yo.



Uomini


Homens.

Homens são feitos de cheiro, suor, cicatrizes, responsabilidades e perigo. Completamente abaláveis por amor ou um coração partido, sofrem mais do que mulheres. Criam casos, batem uns nos outros, procuram soluções onde não há. Homens são insensíveis, insensatos.

Homens conhecem a hombridade que seus pais ensinaram e a educação, mesmo quando pouca, serve sempre para superar uma palavra ofensiva. Homens são nobres, polidos, políticos mesmo quando estão sujos de graxa.

Homens não notam os outros porque se tornam invisíveis. Homens não conhecem suas esposas e filhos porque seu próprio tempo não permite. Os homens acham que, colocando dinheiro dentro de casa, suas vidas estão sendo plenas. À noite, sexo. De dia, um bom almoço.

Homens toleram dor física mas não emocional. Choram fingindo e escondidos no banheiro. Homens choram mais do que as mulheres porque - choramos - poucas vezes mas em quantidade exponencialmente maior. Com um único choro um homem pode alagar a Groenlândia. Mulheres choram até que percebem que a maquilagem pode borrar, então, apenas soluçam. Homens tem emprego como médicos, engenheiros, mecânicos, políticos, técnicos de futebol e agricultores.

Estes são homens naturais.

Porém, alguns outros homens em menor presença batem nas esposas, traem, ferem sentimentos, ignoram suas companhias, pais, filhos, dedicação. Vivem sujos num mundo sujo. Usurpam e destroem. Caluniam, mentem, agridem, escondem-se de medo de encarar o mundo. Tal raça de homens deveriam ser chamados de subumanos porque degradam a espécie natural. Homens assim deveriam não existir.

Não termina aqui.

Existe uma outra ramificação de homens, esta mesclada com ratos e abutres. São indignos e indiferentes, estragam qualquer ocasião e ofendem. Pegam chuva no réveillon em Copacabana como se fossem deteriorar. Pecam contra seus amores - sempre humildes, lindos e delicados. Falam e fazem coisas que não deveriam, lamentam-se depois, fogem e correm para casa, admito, chorando feito bebês e envergonhados por estarem às ruas, desta forma não tendo portanto um porão sujo ou esgoto para se ocultarem às vistas humanas dignas. Estes anti-humanos não são homens. Não são vampiros, não são anjos caídos, não são índios, não são licantropos, não são nada a não ser escória corrompida. E nem um final digno podem ter, tendo afligido tanto um mundo como este. Aqui eu me encaixo e por este motivo, me retiro.

Adeus.

12.11.2011

Aurora Escarlate


Há muito tempo atrás, quando do início da raça criada, um dos mais antigos cometeu um erro brutal. Ele se associou a quem não devia, esperando por um maior poder. O poder de desfazer o que acabara de ser feito.

Ele recorreu a um deus pedindo por um tempo maior durante o dia, para que ele pudesse estar com quem amava. Logo após a transformação, dos Seis Iniciais, este Um ainda temia o que se tornara. Ele sabia que daquele momento em diante estaria incapaz à luz do dia, teria de viver nas sombras e nas trevas, alimentar-se de homens, mulheres e almas e principalmente, manter-se incógnito. Lógico, ele não aceitou. Havia algo nele maior do que esta sede, que era o carinho que ele tinha a um ser que ele havia visto crescer. Era sua família até então.

Bom, o deus concedeu em vez de ajuda, uma maldição. Conhecida posteriormente como Aurora Escarlate.

Em certas ocasiões e muito especiais, estes seres podem andar durante o dia sem temor. Na época, o Um achou que era a melhor coisa, já que ele poderia viver parte da sua vida da forma mais humana possível. Enganou-se. Quando da primeira Aurora Escarlate, ele viu sua sede crescer, desenvolver aspectos brutais em sua força, torná-lo um sádico monstro, violento, desumano, descontrolado, excessivamente viril, consternado e não pior, alheio à qualquer emoção. O que era pra ser o seu momento acabou como a maior desgraça que poderia ter acontecido: ele viu o Sol nascer e se assustou, já havia desacostumado àquela presença. Ele vagou pela vila durante o dia, espantou moradores com sua aparência, bebeu deles, violentou-os, matou e destruiu. Mais, ele acabou com seu próprio amor, por fim, inerte em seus braços poderosamente infantis a ponto de esmagar.

Numa única Aurora ele terminou seus medos. E então, sentou-se e chorou. Chorou até a poça de sangue-lágrimas se tornar revolta e arrastar o que havia em volta. Ele chorou e partiu montanhas. Abriu vales entre os mares. Criou Tempestades. E não pode trazer seu amor de volta, jaz afogado, em sua essência.

Os outros Cincos levaram a Aurora tão funestamente quanto este, porém não tinham muito o que perder. Lamentaram pelo seu irmão mas não podiam fazer nada também. Desde então, a Aurora Escarlate é algo tão temido quanto possível, entre nós. É um tempo em que nos recolhemos acorrentados uns aos outros, para que não façamos mais mal à Humanidade. O mundo de hoje já comporta bestas demais para que sejamos as mais poderosas à solta.

Houve um tempo em que se tentou barganhar com este deus a libertação, mas ele já havia partido. Morto em batalha por um outro deus. A maldição ficou e ele foi, até nisso há injustiça. Mas conquanto haja um trabalho divino ele não é desfeito, sabemos disso na carne pelo que nós mesmos fazemos. De nós mesmos, entre os Seis, um se foi mas seu lugar continua tão forte quanto antes, repelindo qualquer invasor.

Enfim, o momento da Aurora está chegando. Eu posso sentir no ar e na noite que persigo. Mas como eu disse, não terei mais o que destruir.


12.10.2011

Nosferatia in bed




"Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro
Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.
Ah! teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressucitaria
O cadáver de teu vampiro!"

Baudelaire, C.