4.07.2012

I am a poor wayfaring stranger - Andreas Scholl


I am a poor wayfaring stranger, travelling through this world of woe.
Yet there's no sickness, toil nor danger in that bright land to which I go.
I'm going there to see my Father, I'm going there no more to roam!
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.

I know dark clouds will gather 'round me, I know my way is rough and steep
But golden fields lie out before me where souls redeemed their vigils keep.
I'm going there to see my mother, she said she'd meet me when I come
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.

I'll soon be free from ev'ry trial, my body sleep in the churchyard
I'll drop the cross of self-denial and enter on my great reward.
I'm going there to see my Savior, to sing his praise for evermore
I'm only going over Jordan, I'm only going over home.



Listen here.



Auto de Easter (e seu desejo reprimido de aniquilar o Cristo mais uma vez)


Era tarde da conhecida sexta-feira santa(1) quando eu me decidi por compartilhá-la. Jubilar-me com a tradicional compra e posterior troca de chocolates(2), estreitando laços de amizade e familiares e continuar mascarando a real intenção do ato.

Deixei meu apartamento após um bom banho e água gelada, vestir-me e tornar-me apresentável à luz do sol. Por opção de comodidade, resolvi usar meios próprios de caminhar. Afinal, a delicatessen era bem próxima à minha morada. Sai, enfrentei a claridade, enfrentei o mundo mais uma vez.

Cheguei à delicatessen apenas para constatar o quão grande é esta data festiva, havia mais pessoas do que a loja poderia suportar. Por sorte um dos atendentes já havia sido tratado por mim, então ganhei a preferência para minha alegria e inveja dos outros concorrentes. Após as compras e algum dinheiro gasto, resolvi voltar.

No caminho existe uma eclesia aos moldes evangélicos e pelo que notei - até eles - já desvirtuaram um pouco o que se comemora nesta data. Havia um grupo de maioria mulheres à porta, distribuindo panfletos e pregando o amor do senhor seu deus, enquanto ofereciam miúdos ovos de chocolate aos pedestres. Parei para recolher um destes panfletos e uma das mais senhoras me abordou.

"- Está na hora de voltar para deus, varão." - Ela se dirigiu a mim.
"- Senhora, eu nunca o deixei. Se ele me deixou e acabou de dizer à senhora, então que ele resolva comigo depois." - Eu.

Não sei por que cargas d'água eu parecia suspeito e ela, que apoiava-se em um cajado(3), resolveu tocá-lo em mim(4). Tocou, e eu, notei. Ela o recolheu. Parecia em partes, desapontada. Notando este desapontamento:

"- Senhora, o que aconteceu?"
"- Nada. A Paz do senhor."
"- Claro!" - Reconheci instantâneamente. "- A senhora esperava um milagre, não?"
"- Ora meu filho, só nosso senhor Jesus Cristo opera milagres."
"- Então porque a suspeita?"
"- ..."

Colhi o ensejo e:

"- Bom, mas não a deixarei desapontada."

Tomei o cajado da mão dela, fechei meus olhos e lembrei-me do tempo em que os homens eram apenas macacos débeis e que sempre precisavam de provas para reconhecer suas divindades. O cajado vibrou e de sua ponta brotou um ramo de Taraxaco(5), que desabrochou e seguiu caminho até o céu. Ela piscou os olhos, irrompeu em lágrimas e acabou inconsciente. Os outros notaram seu desfalecimento e eu continuei meu caminho, intocado e desprezado.

Aguardo o domingo para distribuir os chocolates, como manda a tradição.


Notas:

(1) Tecnicamente, a Sexta-Feira Santa é reconhecida pelos cristãos como o dia em que o I.N.R.I. sofreu e foi crucificado para pagar pelos pecados do mundo. Não é uma data marcada, muda conforme a Lua após o carnaval e outros fatores adversos que contrariam o paradoxo da infalibilidade da igreja católica romana.
(2) A troca de chocolates é um acontecimento pagão, em homenagem à deusa Easter, que era conhecida e venerada por trazer fartura à colheita e proteção dos camponeses.
(3) Alguns evangélicos por tradição gostam de se tornar importantes imitando os que já se foram. A representação do cajado é para o pastor de ovelhas - analogamente - o guia dos filhos de deus.
(4) Hoje não é muito dificil de encontrar tais servos do Cristo que usam de artificios para enganar os puros de coração. Existem tantos artefatos impregnados com o poder de deus quando os que são blasfemos. Ternos, peões, cajados, estátuas e afins são usados como amuleto e uma espécie de radar aos que se opõem.
(5) Taraxaco - ou dente-de-leão selvagem - é uma planta tradicional dos desertos de Jerusalém.


4.01.2012

Conversas - ou o Algo que já se fora


...
     Ele estava em sua cadeira de estofamento aveludado rubro, de madeira antiga, sentado de forma casual, a pensar no que há depois de amanhã e quando esta sensação de Traição cessaria. De repente, um cheiro inebriante de hibiscus, valeriana, erva-de-coração-de-bruxa e sangue coagulado pairou no ar de forma violenta e confusa, atraindo sua atenção, junto de um ruído bem exato às suas costas.

     Ao mesmo tempo, houve alguns retalhos no mundo. Talvez o vento, a chuva que estava prestes a cair, uma respiração e uma criança que estava para nascer - todos enclausurados dentro de si. Logo percebido, era um demônio que vinha até ele. Seu nome, Buer - o Sábio, cabeça de leão com cinco patas que giram em volta do seu corpo levando-o em todas as direções sem precisar virar a face. Junto dele à direita, Harpócrates e à esquerda, Vermelho. Estes últimos dois grandes amigos do passado. Todas aquelas entidades juntas provocaram um arrepio insensato e inesperado, atraindo pensamentos mascarados e letargia emocional.
"- Pois então, vim." - Soou a voz do demônio. "- Vim por que precisavas de mim e de meus conselhos, vossos amigos foram à minha presença contar-me o que está a acontecer e pelos Rubros Sete Magníficos, preocupei-me com vossa força e presença inconstante."
"- Não é nada" - Falou o jovem sentado à sua cadeira. "- Nada que mais mil anos não resolvam depois que a decisão for tomada." - Parecia cansado, confuso, débil, com os olhos marejados e uma sombra sanguínea a percorrer a tez.
"- Temo que desta vez não possa ser assim." - Mais uma vez o demônio falou.
"- Se não for assim, não será."
     Do mesmo modo que o mundo parecia congelado, assim era o desenvolver do pensamento. Ou diferente, pois parecia fugir contra a ordem e voltarem um a um desde o princípio. Era como rever todas as decisões tomadas que o fizeram chegar até ali. Pôde rever o início do mundo, sua paixão pelo primeiro homem, seu primeiro pecado, sua exclusão da vida, sua primeira sede, sua primeira morte e seu despertar. Notou-se tão pequeno agora que mal caberia na mão de um deus sem escoar por entre os dedos.
"- Diga-me o que queres saber que ainda não sabes. Eu direi. Falas de Traição mas não a compreende, não conhece o coração do homem para quem vive e por quem continua aqui. Não conhece sequer o próprio coração adormecido. Tua visão embaça ao espiá-lo e teus crimes são contra si mesmo. Perdoa-me esta direção do assunto, in veritas, mas preciso caber dentro da sinceridade e do respeito que tenho por vós para que entendais e compreendais vossa sua própria situação. Nunca digas que alguém o trai até que seja feito, não culpeis um inocente mais uma vez. Vejais, com a ajuda dos seus grandes Basanos a verdade que há, não percas o que lhe resta de divino, uma vez que sua primeira decisão fora abandonar este nosso mundo. Tua morte não pode ser morte, sabes bem disso porque tu és proibido de morrer. Teu corpo que se mostra, tua alma, teu poder, tua presença, tudo evapora quando não é aproveitado. Podes mudar a direção da Terra e dos outros mundos se quisesse mas não consegue esquecer? Por dez legiões dos que já foram, aposto minhas cento e trinta e oito armadas como o senhor há de perdoar. Perdoar a si mesmo, entender o quão grande pode ser se apenas se permitir. No Céu e no Sheol és bem vindo e temido, pelos próprios deuses é deus e dos anjos e demônios, senhor. Nove vezes Nove seu Nome e seu poder permaneçam à minha frente para que eu tenha meu próprio poder para prosseguir." - Rugiu a cabeça de Leão sem mexer um músculo sequer.


     O jovem permaneceu inalterado, como se apenas uma brisa passasse por ele sem pedir. Não havia emoção, não havia nada em sua aparência delicada que sugerisse comportamento. Ele desejou poder matar, beber, assustar e dançar por sobre uma nuvem carregada de trovões, como sempre fazia quando tinha medo ou precisava de companhia. Desta vez, ele não pôde, havia algo de diferente na forma como encarava o mundo. Ele ignorou o Leão, enquanto se aproximava e lambia seu rosto complacente. Estava vazio de forma e substância, a um passo de se deixar ser esquecido e acabar com todos os problemas de uma só vez.


...

3.31.2012

I dreamed with your betrayal


Não é algo que deve ser compartilhado, tampouco ocultado. Sonho é sonho e esperemos que nada mais. Mesmo sendo alucinante e carregado de sentimentos loucos e possessivos, um sonho. Não foi o primeiro e nem haverá de ser o último, não até que o sentimento seja novamente preenchido de paz e consideração.

É o que eu mais desejo neste momento.