5.19.2012

Réquiem para Coisas Mortas


Porque estou defronte à inumanidades que me superam,
me deixam à sua mercê,
me colocam subjugado ao que sinto.
Porque amo ao que vejo, sinto.
Logo que exaspero, ressôo, alço vôo,
no encalço daquele que a mim despoja nojo.
Penso no que perdi e no que fiz para perder,
penso na matéria-bruta, no ouro.
Congelo, sabendo que meu sangue é de gelo.
Resfrio não só a mim como aos que envolto estão.

Choro perdido, partido, cansado.
Coloco-me à disposição da Morte que nunca me ouve.
Ou me ouve e chora comigo, já me dissera antes,
porque da mesma dor que sofro e padeço, ela já o fizera e se tornara o que é.
Não por concorrência, mas por sofreguidão não deseja o mesmo pra mim.
E eu a amo por isso. A amo por não dormir e me acompanhar durante toda a noite,
seja quente, morna, o frio eu não sinto mesmo.

Porque vivo num mundo de papelão e a uma velocidade que não compreendo.



Camafeu de Madrepérola - i


...
Acordei.

Notei que algo havia mudado, eu enxergava somente em preto e branco mas não me dei conta até o momento exato que abri as janelas de meu quarto.

Era uma quinta-feira comum, o despertador fizera seu trabalho e eu, até então, deveria me importar em manter o protocolo de banho-vestir-esquecer algo-sair-trabalhar. Geralmente ao acordar e deixar que a midríase[1] me enlouqueça, passo por situações vividas ainda nos sonhos. Ora sinto a espada ora sinto o calor nas mãos. Por vezes, enxergo sem enxergar - é cotidiano.

Nesta manhã em especial nada disso aconteceu. Permanecia enxergando em preto e branco mas ignorei. Levantei-me, segui à ducha, banhei-me e na hora de me arrumar, havia na cama um estranho objeto por sobre as minhas roupas. Era algo parecido com um camafeu de madrepérola, intensamente tonalizado ao dourado, algo que eu não tinha e que havia sido posto ali para que eu o visse. Tomei-o em mãos e abri. Vi-me a mim e mais alguém nele, uma bela dama, trajando roupas de meados do século XVI, cabelos louros presos no alto da cabeça, olhos claros que pela envelhecida da obra do camafeu não poderia distinguir cor. Espetacularmente, bela. E ao lado dela, eu.

Observei por tanto tempo o objeto que não me dei conta de que precisava continuar a me arrumar. Vesti minha calça, calcei minhas meias, sapato e então ouvi "- Tu não te recordas mesmo, não é, meu senhor?" - com a voz de uma mulher, bem atrás de mim, em meu quarto. Virei-me espantado, afinal os únicos que tem permissão de entrar em minha casa são Harpócrates e Vermelho, qualquer outra entidade precisa de permissão, por isso estou sempre seguro e mesmo assim, sinto seus cheiros quando estão por perto ou para aparecer. Simplesmente era ela, a dama do camafeu, vestida exatamente daquele jeito e olhando para mim com olhos tensos e suaves - ela tinha heterocromia, o olho esquerdo era verde e o direito azul - traço agora. Estava assentada em minha cadeira de madeira européia, pernas cruzadas e sua atenção dirigida exclusivamente a mim. Por sinal, aquela cadeira não era minha, deve ter surgido com ela, mas eu sabia que era minha em alguma época.

"- Ah, meu jovem senhor, não tema. Vim para dar-lhe um recado antigo que, ao notar o quanto se recorda de mim, receio ter também, esquecido-o. Enquanto éramos amantes, tivemos um filho. O doce Orpheo, lembra-te? Lembra-te também que o Nosso Senhor o quis logo cedo e o tomou de nós após aquele episódio febril que nem você pode controlar - o médico de maior prestígio do condado? Lembra-te ainda que prometera vingá-lo? É chegada a hora. Ele retornou e está com quem não deve, soube eu de alguns entes queridos e mesmo depois de todo este tempo, ele o quer como pai. Ouviu Daquela Senhora que nos visitava sempre à noite histórias a seu respeito. Ao que soube, ele ouviu as histórias somente da sua época de "Guerreiro", não contaram o porquê de ter abdicado."

Cada palavra dela me preenchia e queimava mais ainda meus olhos, comecei a enxergar mais em branco do que em preto, coisa que acontece somente quando estou de frente à uma entidade muito forte presencialmente. Instantaneamente eu a amei, novamente, e vi o momento do nosso primeiro encontro, dos nossos anos de namoro, noivados, casamento, a cópula, as promessas, o momento em que meu filho nascera e o momento em que eu o perdera. Lembro que foi esta a Terceira Vez que abdiquei e me tornei homem. As duas primeiras, uma fora contada. Não conseguia falar nada, apenas deixei que ela falasse.

"- Pois trata-se deste meu aviso, ele virá até você e o reconhecerá como pai. Mas não o pai que você foi e teria sido, mas como o pai que Ela contou que você deveria ser. Ele já virá marcado por Ela, com sangue aos olhos e desonrado. Ai de mim, mãe, vê-lo assim. Mas você, pai, sabe o que deve ser feito. Por ainda amá-lo não o deixaria desavisado, precisei do subterfúgio do camafeu para vir até você. Com a ajuda de seu nobre amigo Harpócrates, agradeça a ele por mim, depois. Onde estou agora é realmente bonito, graças a você. Tenho meus familiares comigo, compreendi diversas coisas, perdoei e nunca se esqueça de que nunca o culpei pelo que aconteceu. Faria tudo novamente e se há perdão aqui, eu devo pedí-lo pois fui fraca ao ver sua imponência e declinei. Se naquele momento eu soubesse já o que o senhor era, não teria temido e fugido. Portanto, perdoa-me".

Havia lágrimas em seus olhos e ela se levantou, veio em minha direção e beijou-me a boca. Não senti sua carne, apenas um frio e uma torrente de emoções. Ela pegou o camafeu de minhas mãos e automaticamente comecei a notar as cores novamente, menos nela, que permanecia quase em sépia. Naquele momento de introspecção ela se despediu de mim e partiu, deixando-me só, aspirando o aroma de verbena e alecrim que me era tão familiar. Sentei à beira da cama e comecei a refletir no que ela dissera. Meu filho, viria até mim, em busca de quê? De um pai somente? Porque Ela contou histórias sobre minha existencia? Éramos amigos porque tinhamos inimigos em comum.

Existe algo maior ai que preciso por em prática. Não falei com Harpócrates ou com Vermelho ou com meus irmãos, apenas terminei de me arrumar e sai para o trabalho: Estou no momento da minha Quarta Abdicação, ainda. Passei o dia com aquela sensação de que estava sendo seguido e de que meu corpo parecia estar querendo ser tomado, ignorei. Tomarei providências quando necessário for, por hora, apenas relato para que haja algo com o que trabalhar posteriormente.

É meu desejo continuar...

[1]Midríase - dilatação da pupila sob efeito da luz. 

Nuit - v



Eu vivo pela Noite,
Ela me persegue, me segue, me seduz.
Me encanta, me acalenta, 
Me torna escravo do que produz.



POEMA 20 - Pablo Neruda


Vinte poemas de amor e uma canção desesperada



Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quiz e por vezes ela também me quiz
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Ao mestre.

Tenho pensado em você. 

Em você e nos outros, mais do que deveria. Como eu disse, uma mulher pode amar a vários homens porém quando um homem ama a várias mulheres ele se torna sujo. É como estou, sujo. Polígamo, emocionalmente. Penso em você e penso nos outros, na outra. Naquela que se fez passar por homem - Shakespearyano, assumo - para se aproximar, mas que desde o começo eu sabia quem era. Penso em Byron, Poe, Shaw, Chapman, Churchill. 

Penso no meu Legado, no meu nome, no que nada herdei ainda.

Penso agora nas jovens corujas que nunca alcançaram seu destino, ao entregar minhas mensagens de amor aos meus amantes, elas mesmas optavam pelo suicídio por considerarem profano o que eu fazia. Jovens corujas, sapos, serpentes, gaviões, lobos... Todos mortos. Todos me desprezavam e Todos queriam me proteger do que não pude ouví-los. Minha mãe alertou, meu pai precificou cada erro que cometi.

Nesta hora, não há paz. Mãe, Pai, servos, mensagens, lágrimas, exposição. Há uma incognição de alma e vontade de recriar. Usei de Neruda pois acabei de mandar isso por mensagem a um deles, poderia ter incluso Cardenal mas achei que seria dar muita razão ao amor que não se foi. No final escrevo mais por mim mesmo - e por meus egos. Olivia já me alertara que eu tão cedo morrerei de amores. Não por falta e sim por excesso.

Oeste, é para onde irei.