11.09.2012

Flauta, Noite e um coração desperto


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Estava eu, andando sozinho por uma noite escura, em busca de uma presa consideravelmente culpada por crimes hediondos. Não que eu sempre aja como o mocinho moderno e só beba dos maus, mas porque neste noite, em especial, eu precisava provar de um sangue sujo para equivaler ao que eu sentia corroer minhas tripas mortas. Era uma noite de Primavera, se não me engano, com um clima ameno e previsão de chuva, quase como hoje. Por uns vinte quilômetros eu andei, na minha velocidade, vasculhando cada coração em busca do corrompimento necessário para que a sede aflorasse.

Eis, quando, ao dobrar uma esquina pouco movimentada, vejo um jovem rapaz sentado à sarjeta. Havia uma caixa de forração ao seu lado. Notei que não haveria de ser um pedinte pois estava bem vestido e penteado, mesmo àquela distancia eu poderia ver. Seu coração era sensato mas, por um momento, era como se buscasse a morte ou estivesse desesperado por algo, que não conseguia encontrar. O jovem emanava uma aura de auto-flagelação e misericórdia que ainda não havia visto, era com se realmente buscasse algo além da morte, uma punição ou um perdão.

Fui andando em sua direção, havíamos apenas nós dois e mais uns poucos casais que não se deram conta da minha sorrateira aproximação. Fui diretamente a ele, buscando em sua mente exacerbada de emoções alguma razão para que um homem tão distinto estivesse naquelas condições. Ao me ver aproximando, primeiro ele se assustou, afinal já era tarde da noite (ou da manhã). Logo, se recompôs e abriu a caixa. Confesso que receei ser algum tipo de arma e meus olhos cintilaram de vermelho, quando numa fração de segundo eu segurei sua mão que buscava algo dentro da forração. Ele se assustou com o tom rubro dos meus olhos e minha velocidade ao percorrer tamanha distancia, mas notei que o que ele buscava não se tratava de nada mais do que uma flauta transversa. Era intenção dele tocar, talvez em troca de algum dinheiro. Tentei me esquivar de perguntas e o soltei, apenas para que ele se colocasse em posição e tocasse uma belíssima sinfonia para mim.
"Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim." - Adélia Prado, Trecho de "A Serenata"
Ele sorriu, empunhou sua flauta e em poucos segundos eu perdi meu chão. Sentia como se fosse um Sem-Forma novamente, cada som preenchia meu ego e minha existência como nunca antes. Cada toque, cada acorde, cada resfolegar dele me excitava. Ele tocava com tanto amor, paixão, sensibilidade, coração. Era como a Yamibue que tantos falam estar perdida. Naquele momento eu revivi mil eras e talvez mais. Pude ver seu coração partido, o porquê dele estar na sarjeta, suas frustrações, seus sonhos, seus desejos suas vontades e aquilo só aumentou meu desejo de tê-lo. De bebê-lo. Junte isso a uma bela figura loura com olhos azuis tão claros, um corpo palpável e uma pele tão branca que reluzia os lampiões que estavam nos iluminando. Não poderia me permitir chorar ou ele veria minhas lágrimas de sangue. Na rua, de repente, éramos só ele e eu, pleiteando a atenção das estrelas, ele com sua música e eu com o amor que me consumia.

Tocou toda a sinfonia e por fim, fez a reverência. Me agachei perto da caixa da flauta para dar-lhe algum dinheiro (o que me sobrava mas talvez faltasse-lhe) quando ele se recusou. E então, o que pediu em troca deixou-me boquiaberto. Como se não fosse um enorme passo, ele pediu-me em troca do dinheiro, um lugar pra dormir e onde pudesse se trocar. Novamente me pegou desprevenido. Não poderia imaginá-lo como um michê ou algo parecido e eu mesmo tinha minhas formas de me proteger. Pensei por uma fração de instante e, pelo mesmo orgulho que Hades manteve Orphíos no Erebus, acabei trazendo-o à minha casa. Tomamos um taxi (afinal, não tenho o costume de usar carros mas não poderia deixá-lo saber como eu me locomovia pelo dom das sombras) enquanto ele me falava sobre sua própria vida.

- Era um flautista em ascensão, nos seus tenros 25 anos de idade, e aprendera a flauta transversa desde os quatro. Naquele dia estava em um concerto, no Teatro Municipal e quando acabou, sentiu-se estranhamente vazio, como se tocasse por obrigação e não por prazer. Confessou-me que tocar para multidões o apavorava o que diferia quando tocada para um ou outro. Desde os 14 anos tocava profissionalmente em filarmônicas e progredia no instituto de artes e que, àquela altura, já estava saturado. Queria talvez uma nova vida independente, mesmo que precisasse da flauta para isso. Era um jovem de princípios, o que lembrou-me minha era, quando os jovens já eram homens e que hoje não passam e sempre continuarão crianças sem discernimento. Contou-me sobre os pais, irmã e sobre como vivia numa cidade próxima, para onde não pensava em voltar. Enfim, durante nossa viagem de uns quarenta minutos eu soube mais dele do que queria.

Em minha casa, bem situada num ambiente singular e emergente, convidei-o a entrar e cumprir o que pediu-me: trocar-se, banhar-se e aproveitei questionando se não queria comer algo (não poderia dizer que estava à vontade com estes preceitos). Ofereci algo que pudesse ser comprado e entregue, por telefone, quando ele reparou que em minha residência não havia uma destas máquinas que mantém as refeições conservadas. Enquanto ele se banhava, preparei roupas minhas para ele, telefone e pedi uma variedade de pratos da culinária japonesa (há tanto tempo que não como comida humana que não sei mais como é o apetite dos jovens). Alguns minutos mais tarde, ele saiu do banho vestido com meu roupão negro de seda, se desculpando e questionando se não haveriam roupas mais claras uma vez que todas as que dei a ele eram negras. Dei liberdade para buscar em meu closet algo que o agradava mas o segui de perto, afinal, ainda não o conhecia e como já deixei claro, não ia buscar em sua mente seus propósitos. Juntos, fomos ao quarto para que ele escolhesse. Chegando ao closet, ele deixou o robe cair e simplesmente ficou nu, em minha frente. Olhou para trás acanhado mas com uma certa intenção e eu desviei os olhos para dar-lhe liberdade.

Ele, após apanhar o robe, enrubescido, escolheu uma camisa vermelha e uma calça branca, sapatos pretos e um cinto vermelho. Ofereci uma bolsa para guardar suas roupas trocadas e ele aceitou. Mais uma coisa que ele notou: não havia cama em meu quarto. Isso eu pude ver em seus olhos mas, como ele não questionou, não precisei mentir ou omitir. Havia apenas uma esteira coberta com um edredom vermelho sangue e acredito que ele imaginou que eu me deitasse ali. Depois que estava quase vestido, a campanhia tocou e fui atender. Era o entregador. Paguei, deixei uma bela gorjeta, fiz com que ele esquecesse meu rosto e o deixei partir. Preparei precariamente a mesa e distribui a refeição. Quando ele veio do quarto, completamente vestido, tive mais uma surpresa. Como era belíssimo aquele homem e como era elegante e distinto, mesmo com seus 25 anos. Parecia uma destas marionetes antigas e por um segundo meus olhos ficaram azuis, tratei logo de retratar, convidando-o à mesa. Toda a refeição estava disposta somente para ele e ele me questionou sobre o que eu comeria, disse-lhe apenas que havia tido uma ótima refeição antes de encontrá-lo aquela noite (pobre desabrigado que me serviu de alimento, não pude parar de beber até que ele morresse, me livrei do corpo mutilando-o e espalhando-o - mas ainda havia sede). Ele comeu toda a refeição e bebeu do vinho branco que eu servi. Por fim, se levantou e veio em minha direção, parou bem defronte a mim e questionou como poderia agradecer. Eu disse que, continuando a tocar daquela forma e acalentando corações partidos já era um bom começo, além de viver como um bom homem (claro, era apenas uma fuga já que eu o desejava e me refreava).

Por sorte minha, ele não levou a serio e aproveitando que eu estava sentado à sua frente, sentou-se em meu colo. Beijou minha testa e meus olhos, logo depois  minha boca. E, como sempre, há o comentário sobre como minha pele é fria. Tocou meu pescoço, meu peito e se preparava para levantar minha blusa quando eu o interrompi, dizendo que não poderia fazer aquilo, que estava cansado mentalmente e confuso, seria um erro. Ele simplesmente sorriu com o sorriso mais doce que já vi num adulto e disse que fazia exatamente o que queria fazer, sempre, e que se houvesse um primeiro a fazer aquilo, que fosse eu. Discuti, dizendo que ele mal me conhecia e que não deveria ser desta forma, mas ele soube me dobrar com um longo beijo em que precisei esconder as presas que já saltavam, excitadas (e não só elas).

Um momento depois eu o peguei no colo e o levei para o quarto, para a esteira no chão com o edredom vermelho e comecei a tirar suas roupas recém-colocadas, peça a peça. O corpo que havia era esculturalmente belo, não como estes modelos de estátuas gregas, mas como um corpo bem cuidado de um jovem. Permiti que ele tirasse minhas roupas também e acabamos fazendo amor naquele chão. Só houve um momento de fraqueza meu ao, quando chegar ao clímax, acabei por morder seu pescoço e beber dele. Ele não notou, faz parte do nosso poder, o que inclusive deu mais prazer a ele. Depois de algumas horas, adormecemos - ele, na verdade, enquanto eu cobria os vestígios da mordida com umas gotas do meu sangue e me preparava para caçar. Ele dormiria sob feitiço, até o dia amanhecer. Me vesti novamente, mas agora com a camisa que ele vestira, queria sentir mais um pouco daquele cheiro enquanto ia à caça. Logo, achei uma prostituta que por poucas moedas "faria o que eu quisesse, até de ponta-a-cabeça". Paguei a mulher e sem misericórdia, quebrei seu pescoço enquanto bebia. Então, excitado, arranquei sua espinha e seu coração e bebi diretamente dele. Com o Fogo, livrei-me dos pedaços daquela carne imunda.

Andei mais um pouco entre os mais altos prédios da cidade, em busca de alguma resposta. Não as encontrei. Como faria para voltar pra casa, como faria quando ele, Vincent, acordasse e não me visse por lá? Talvez ele se sentisse rejeitado de alguma forma e se retirasse. Porém algo era diferente naquele garoto e eu podia sentir. Não me sentiria bem abandonando-o, mas não sabia se valeria mantê-lo por perto. Era algo com que eu mesmo precisaria lidar. Havia uma possibilidade...
Escuta a flauta de bambu,
como se queixa,
lamentando seu desterro:
“Desde que me separaram de minha raiz,
minhas notas queixosas arrancam
lágrimas de homens e mulheres.
Meu peito se rompe,
lutando para libertar meus suspiros,
e expressar os acessos de saudade de meu lugar.
Aquele que mora longe de sua casa
está sempre ansiando
pelo dia em que há de voltar.
Ouve-se meu lamento por toda a gente,
em harmonia com os que se alegram
e os que choram.
Cada um interpreta minhas notas
de acordo com seus sentimentos,
mas ninguém penetra os segredos de meu coração.
Meus segredos não destoam de minhas notas queixosas,
e, no entanto não se manifestam
ao olho e ao ouvido sensual.
Nenhum véu esconde o corpo da alma,
nem a alma do corpo,
e, no entanto homem algum jamais viu uma alma”
A flauta é confidente dos amantes infelizes;
Sim, sua melodia desnuda meus segredos mais íntimos...
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue, do amor...
Excertos do prólogo de MASNAVI de Jalaluddin Rumi


Continua...

11.05.2012

We're not alone - Broken Iris



At sunrise, open your eyes take a good look outside and wonder,
"is this right?" because deep down inside there's something that's left
To discover

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound
Singing...

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

When day turns to dusk
And you close your eyes and finally realize as you ponder
A battling storm in the sky

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

It's impossible to blink away
From this astonishing absolute beauty
And i smile just as you say

Set all your fears aside
Reveal what has grown through time
The overcast falls behind
Then you'll find

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone


11.04.2012

A Agnes, pois hoje me recordei dela e chorei


Passo tanto tempo de minha vida esperando por algo, alguém, que não reconheço o bem que me está tão próximo. Crio fantasias, realmente, que preencheriam um livro mas ninguém quer saber de minha vida. Ninguém quer saber de nada, a não se de si mesmos. Não há como discordar pois se não é o que eu mesmo estou fazendo neste momento exato?

Viver por buscar difere de viver para achar o que busca. Pode parecer semântica ou qualquer outra figura de linguagem que a gente acha que não existe mas que nos pega de surpresa numa prova de concurso público, mas não o é. É a mais pura verdade. Existem aqueles que não vivem para si e sim para os outros e aqueles que vivem sugando o que estes primeiros passam a vida por fazer.

Falo isso porque hoje, numa conversa com a maternidade, eu chorei ao me recordar de uma grande amiga (que já mencionei aqui antes) e o quanto ela fazia pelos menos afortunados que ela. Nota: Ela era a pessoa mais pobre que eu conhecia na época e ainda assim havia piores. Havia aqueles que nem perto da presença dela estavam e estes eram considerados desafortunados. Ela era doce, suave, plácida, cálida e justa com os carentes porém brutalmente manipuladora - do jeito correto - com os que pressionavam o sistema e faziam de seus filhos, pobres miseráveis incapazes até de se levantar para comer ou rezar. Ela era uma Leoa que protege sua cria de tudo e de todos. Quantas não foram as vezes que ela me protegeu, inclusive de mim mesmo, parando tudo o que fazia para sua dedicada atenção. Lembro-me até hoje de todas as palavras que ela me dissera. Todas. Lembro-me das noites que passei com ela, nas ruas, alimentando os que não podiam sequer erguer os braços para levar o talher à boca. Lembro-me de, com ela, cobrí-los do frio assustador que mesmo uma terra quente pode propor durante uma noite. Cada pessoa que a ouviu estava ao meu lado, pois eu também a ouvia. Cada pessoa que a ajudou, me ajudou. Cada pessoa que a magoou ou se desfez de sua figura miúde e simples, bom, ai ela tomou para si, não me deixaria revidar. Eu era, para ela, como um filho e ela como uma mãe para mim, apesar de tudo. Ela sabia de minha vida por completo e me aceitava, sabia das minhas responsabilidades e deveres e nunca cobrava ou era parcial. Nunca pediu mais do que podia para seus filhos e tomava todas as dores deles, incondicionalmente. Nunca ousou erguer seu punho para repreender e nunca rezou para o seu deus pedindo, somente agradecendo pela força que ela tinha e principalmente, nunca se queixou do que carregava nos braços. Nos setenta e dois anos que andei com ela, nunca a vi se queixar.

Por metade de uma década eu temi por ela, quando ela começou a se perguntar o porquê de tudo aquilo. O porquê do seu deus deixar nas mãos - que ela considerava - frágeis o destino de tanta gente. Ela mais que qualquer um outro tinha este direito. O que a fez voltar? Estigmas. Não os estigmas violentos e absolutos que outros viveram, mas um certo tipo de estigma que não pode ser visto porque ele nos toca no coração. Teologicamente, falamos de estigmas como as feridas que um senhor chamado Jeshua, Filho de Marian e Yussefei sofreu, antes de se tornar o rei dos judeus e criador de uma nova fé. O estigma que falo é, sendo ela criada dentro destes preceitos, saber o que é estar como seus adversários: Fora da Luz, Fora da Fé. E quando ela viu que não poderia viver sem ajudar, sem se doar, ela voltou para nós. Nunca a julguei e ela nunca seria punida, enquanto eu estivesse existindo. Ela passou sua vida dedicada a nós e aos humanos, nunca diferente e isso a tornou uma Santa antes mesmo da autoridade máxima de sua Fé a declarasse pois, nos céus, ela já era tida como uma mulher que obliterou todos os seus limites e merecia seu lugar à direita dos Tronos Celestiais.

Bom, para quem não a conhece, não importa. Importa para mim ter vivido com ela, ter vivido para fazê-la feliz e protegê-la pelo pouco tempo que ela teve, importa o quanto eu aprendi com ela, sobre homens, mulheres, crianças, ervas, preces, medos, anseios, Fé e principalmente, Amor. É o que ela mais me ensinou e o que mais me cobrou espalhar. Ainda nos dias de hoje me pego falando com ela, mesmo sabendo que ela não pode mais me ouvir. Sua estadia nos Céus está povoada ainda de cuidados e ainda existe muita gente para ser salva em seu nome, em todos os cantos do mundo. Só que, existem momentos especiais, em que eu sei que ela está comigo. Quando sinto aquele aperto abraçado, aquele aroma de bondade misturado com temperos, curry e alfazema. Quando sinto que o amor me preenche e que eu estou caindo, ouço aquela vozinha calma e tenra me dizendo "tenha fé, meu filho. Tenha fé porque o que você passa não se compara ao que os sofridos passam. Tenha fé porque eu tive e eu a ensinei a você. Tenha Fé e sobretudo tenha Amor. Tenha amor para discernir o que te faz bem e amor para não corromper-se mais ainda com o que te faz mal. Não espalhe sua felicidade, mantenha-a para si, ela só pertence a você. Porém, seria um crime não espalhar a bondade que a sua felicidade te causa. As pessoas não precisam de motivos para serem felizes, nem para ajudarem uns aos outros, apenas precisam ser elas mesmas e tudo virá". Com estas palavras eu me tornei o que sou, Abdiquei pela Quarta Vez. Não compreendi ainda o que significa o amor puro que ela me ensinou, infelizmente, e agora não a tenho mais tão perto. Confesso que ainda guardo rancor em mim, obscurecendo parte de min'alma e sei que ela não estaria feliz se pudesse me ver assim. Tenho vergonha e medo de desmerecer tudo o que aprendi. Mas é que as coisas andam tão confusas e complicadas e fugidias e tristes para mim. Eu já não sou o que ela conheceu mas conseguirei voltar ao bom estado, à boa maneira. E ela, sempre estará presente no meu coração, onde quer que eu vá.

Muito obrigado, Agnes, por tudo o que você me ensinou e pelos momentos que pudemos estar juntos. Muito obrigado pelo tempo que me ouviu, pelas noites que passamos de canto a canto da sua terra, ajudando os mais necessitados. Muito obrigado, por nunca ter medo de mim e nunca ter me pedido para ser maior do que os outros, nunca ter me pedido um desejo ou se engrandecer. Muito obrigado, अम्माँ. Muito obrigado, Matti, Mamadi, Ambika, Madre.


11.01.2012

A consequência de uma Alma partida


Tenho sido um tolo ao acreditar nos sentimentos vazios de amigos descartáveis. Não passam de subterfúgios para minha sub-existência infundada. Confesso que sei que o erro começa em mim, por permití-los. Normal, quem não quer ser aceito na data de hoje? Quem não quer saber de verdade como é viver na Luz? Principalmente para alguém que se alimenta da Noite como eu.

O que mais me incomoda não é permití-los, e sim nunca esquecê-los. Não consigo, mesmo quando sei que devo. Muitos me magoaram, muitos me devastaram e muitos me fizeram optar pela morte definitiva. Por apenas quatro deles eu Cai na Abdicação. Supliquei pela Abdicação, in veritas. E no final, não valeram uma pena lançada à fogueira. Mas, mesmo sabendo o quão mal eles me fazem, eu ainda suplico. Protejo-os sem que saibam, velo por eles, velejo além-mar para vê-los, incógnito nas sombras como sempre fora.

Ai vem o outro lado que meu grande e verdadeiro amigo, A Estrela da Tarde, sempre cita: "- você os perde porque não os deixa conhecê-lo.". Ele tem razão. Não posso deixar. Houve um tempo em que as raças se mesclavam e destas uniões grandes formas nasceram. Este tempo se foi, há muito tempo e não há mais nos dias de hoje esta subjeção.

Talvez, como um Serafim, eu assuma várias formas. Formas que me comprometam, formas que me beneficiem, formas atemporais. Mas a maior parte do tempo sou realmente sem forma. Vivo em Tempo e não em Espaço.

Outro dia, um 'amigo' diz que eu vivo uma Fantasia. Mal sabe ele que o que crio é a mais pura e condensada verdade e que esta verdade, assim como a Noite, é a única coisa que pode me fazer continuar existindo. Está ai mais um dos males do ser humano: a descrença nos seus deuses. É a reafirmação que sempre coloco em questão: mostrar-se 10% para que não vejam os outros 90% e que, ainda, considerem dos 10%, 2% real. É nossa vantagem, o ser humano não crê nele mesmo e sempre acham-se maiores e melhores do que os outros, porque não aproveitar esta enorme fraqueza para nos colocar de forma evidente em seu plano? É a melhor ideia que um Ancião já teve, acho que começou com o deus dos Hebreus.

Nos incluir em sua história, em sua existência, em seus medos e seus maiores desejos como algo intangível quando, na verdade, estamos sempre entre vocês. Evidentemente, mas que, com seus olhos sujos e auto-reflexivos, não nos vejam e continuem a sonhar conosco. É um prazer criar esta fantasia real, a não ser quando o próprio criador se deixa levar por ela, como eu fiz. Não soube delimitar até onde eu poderia chegar e acabei indo longe demais. Assumi seus sentimentos, suas fraquezas, sua falta de virtude e elevei ao expoente máximo que minha raça permite. Me tornei pária, fraco e decaí. Não somente por amor mas por vaidade. E a vaidade me consome feito o fogo que temo, mesmo sendo agora, mais forte que ele.

Acho que me desviei do assunto principal.

Enfim, eles vem e vão. Eu fico. Um poeta pobre disse uma vez "Eles passam por mim. Eles deixam algo deles e levam consigo algo meu." Talvez se referisse à bebida ou sexo, eu assumo como Alma. É como acontece. Eles levam parte de minha alma consigo. Por menores que sejam, por mais humanos que sejam, medíocres, mentirosos, sujos, criminosos e descrentes. E eu na minha posição, ao invés de esquecer, mantenho na recordação cada mácula, cada ferida. Peso cada uma das penas que não tenho mais porque cedi, para seus desejos. E adivinhem, eu estou mais sujo do que todos eles juntos.



Sinto falta do tempo que não havia mais ninguém no mundo, apenas nós, vagando sem forma e criando..