11.10.2012

Qualquer explicação plausível seria eufemismo, um pesar de eufemismos


Um certo dia, na data específica das minhas Bodas de Cera, eu conheci outro homem. Marquei com ele numa praça qualquer de algum lugar qualquer e nos encontramos. Ele era lindo e exalava Luxúria, quase como eu. Fomos para uma destas casas em que se alugam quartos para usá-los com fins sexuais, qualquer, e lá passamos a Noite consumando. Não foi tão bom, admito.

Outras noites vieram depois destas, uma melhor do que a outra. Meu coração e minha alma se renderam.

Um dia, um hoje qualquer, eu li algo que não devia em algum lugar, qualquer, me desesperei, enlouqueci, enfureci-me, fui até ele e abri sua cabeça com minhas próprias mãos. Mas não antes de deixa-lo exangue, mutilado e profundamente queimado com as brasas que saiam de meus olhos.

Enfim, eu tive paz. E não tive medo de punições, meu orgulho me impelira a isso. Eu sou Legião, Comando mais do que o próprio Lúcifer pois os que estão comigo estão sempre.



Finitun.


11.09.2012

O preço de uma rejeição e o que fazemos por quem já amamos


Como um bom Noctívago, escrevo sempre melhor durante a noite e me valho da noite para esconder meus pecados e traições. Logo, todo e qualquer conto que eu - ou uma das minhas personalidades - escrevo será, em maioria, baseados e ocorridos na Noite, que é meu ambiente. Ou nos sonhos, com a ajuda de um grande amigo. Ou serão lembranças, com ajuda de uma grande amiga. Enfim, ai está. Este, bem, não é totalmente irreal.

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Era noite do dia 12 de Maio de 1998. Não me recordo que idade tinha na época, somente que cursava - novamente - o último ano do colegial. Estava deitado em minha cama, ainda no estado de vigília, sentindo que alguma coisa estava errada porque a energia oscilava quando eu piscava os olhos e algumas mariposas avermelhadas estava pousadas na minha janela. Inúmeras delas, querendo entrar para me contar um segredo ou pedir ajuda - eu brinquei.

Ao se aproximar das duas da manhã, ouvi um ruído distante vindo da frente de minha residência. Um murmurinho. Pensei ser animais ou alguns transeuntes. O barulho permaneceu e junto a isso batidas enérgicas em meu alto portão. Em um segundo, todas as mariposas que estavam pousadas na janela simplesmente bateram as asas e se foram, diagnostiquei o mau presságio. Resolvi inquirir o barulho, me dirigi à porta e, pelo vidro jateado pude ver que haviam pessoas exatamente defronte ao meu portão. Hesitei por um instante e ouvi além, com meus preciosos ouvidos inumanos. Havia choro, desespero e medo em suas falas. Ouvi um homem dizer que era 'bobeira o que a mulher estava fazendo' e ela revidou dizendo 'que era o melhor, já que ele só citava meu nome no delírio'. Fiquei deveras confuso mas reconheci as vozes de imediato.

Vesti um robe qualquer que estava ao pé da cama e fui até eles, quando percebi que chamavam era por um dos meus nomes. A porta se abriu para eu passar, desci as escadas e a chuva não me molhava, fui até o portão e o abri para eles. A cena que vi, quando me recordo, ainda me choca: lá estava uma mãe em desespero absoluto, com o rosto jovem borrado de lágrimas e as roupas em frangalhos e junto dela um jovem homem, seu irmão. Claro, conhecia as duas figuras de longa data. Quando ela me viu agradeceu ao seu deus por eu estar presente e tê-los atendidos, havia uma incredulidade no olhar do irmão.  Ela, se ajoelhou aos meus pés implorando ajuda, alegando que seu filho estava sob algum tipo de doença estranha e que em seu delírio de alta febre, dizia meu nome e no único momento de lucidez que teve, disse que eu e somente eu poderia ajuda-lo.

Estranhei, afinal eu o conhecia há décadas mas não o via há muito mais tempo do que queria. Porém, antes de entender a situação eu já havia compreendido o sofrimento da mãe. Não era nada simples, eu imaginei. Ela insistia para que eu os acompanhasse, quase que me sequestrando apenas de robe. Eu pedi somente um minuto para vestir algo e em menos de cinco minutos estava pronto para acompanha-los. Não sabia para onde ou para quê. Durante a curta viagem, ela me contou os maiores: seu filho havia chegado em casa naquela tarde nauseabundo, com uma coloração pálida nos olhos, fosco, trocando as palavras e a ordem e se sentindo absolutamente cansado. De começo, ela pensou que pudesse ser algo com bebidas ou drogas, coisa que ele nunca havia feito, mas os jovens de hoje não são mais tão confiáveis como os da minha época. Logo, o problema se tornou maior quando ele desmaiou e ao medir sua temperatura, girava em torno de 42 graus. Trataram de chamar o médico que, ao medir a temperatura novamente e fazer uma pequena avaliação, prognosticou como algo viral, prescreveu antibióticos e disse que em dois dias ele se sentiria melhor. Algo no coração da mãe sabia que não era apenas aquilo - o que se comprovou quando a pirexia elevou e, ao beirar os 44 perigosos graus, ele começou a ter espasmos involuntários pelo corpo. Ela temeu por sua vida.

Logo, ao delirar, ele começou a balbuciar umas palavras inteligíveis. De princípio era algo como 'Ler', 'Lion', 'Lá'. Depois passou a 'Lianjo', 'chama Lianjo, só ele pode me ajudar'. A mãe não imaginava quem poderia ser e permaneceu ao seu lado, tentando entender. Delirando ainda, ele pediu uma caneta que ela prontamente atendeu. No braço dela, ele escreveu 'Lean' com um traço final que a feriu. Levou um tempo para ela identificar quem seria, como eu disse, não nos víamos há bastante tempo. Como um baque, ela se recordou a quem pertencia o nome incomum e chamou o irmão, na expectativa de que o alvo ainda estivesse alcançável. Foi quando ela, se dirigindo à minha casa, me encontrou.

Voltando ao tempo real, nos dirigimos de volta à sua casa e eu tentei, confesso que tentei imaginar o porquê daquilo tudo. Não havia explicação plausível para mim, mas, as mariposas vermelhas na janela poderiam ter algo a ver. Talvez era o que tentavam me alertar. Em menos de vinte minutos chegamos em sua casa e sua família parecia já estar preparada para o pior. Havia outro irmão, a namorada dele, avó, tio e chegando comigo, mãe e outro tio. Minha presença causou certo burburinho mas evitei chamar mais atenção do que devia. Em suas mentes, eles achavam que eu era o culpado e apenas a mãe e a namorada sabiam que eu poderia ser o único que poderia ajudar (eu já conhecia sua namorada, mãe de seu filho, há bastante tempo também). Houve uma pequena discussão quanto à minha presença mas a mãe logo me encaminhou ao quarto do filho, deitado, prostrado na cama, com um ar cadavérico como se houvessem tentado tomar sua alma. A mãe apenas chorava e o irmão dela a acalentava. Então, ela me perguntou o que eu poderia fazer já que ele me chamara. Ou se era apenas para se despedir, uma vez que ela sabia que em outros tempos, havíamos sido melhores amigos.

Sentei-me ao chão, ao lado da cama e ele meio que sentiu minha presença pois virou a cabeça em minha direção e disse meu nome, com um esboço de um sorriso fraco. Sabia que não se tratava de um mal físico imediatamente, então pedi um pedaço de pano à mãe que prontamente atendeu, rasgando parte de sua blusa. Amarrei-o em sua cabeça de forma que só um olho ficasse descoberto e agora o que vi, foi o que mais me entristeceu mas era tarde para deixá-los e eu me comprometi a ajudar, deixei minha vergonha e meu antigo amor na porta quando entrei àquela casa:

"Ele estava dirigindo numa rodovia de alta circulação, perto de uma área de baixo meretrício, quando foi abordado por uma das 'profissionais'. Ela era belíssima, com um corpo escultural e não aparentava mais do que 25 anos, com belos lábios vermelhos e uma roupa provocante. Ele chegou a cogitar seus serviços porém, ao se recordar da namorada em casa, hesitou. A prostituta então se revelou, abrindo a boca apenas para proferir algumas palavras que de início ele não entendeu, e, logo partiu com seu carro. Sentia-se mal, diferente, desde que a encontrara. Quase bateu com o carro umas duas ou três vezes e por fim chegou em casa. O que ele não sabia, mas eu vi quando olhei em seu olho e sua memória, é que aquela não era uma puta qualquer. Era uma sucubo, que eu conhecia há muito e muito tempo e chamava-se Balquis. Era um demônio sexual feminino que existia desde a antiga Babilônia e pela qual muitos reis entregaram seus domínios e todos faleceram, misteriosamente, de uma peste. Balquis podia extrair a parte boa da alma das pessoas e se alimentar dela, era o que fazia quando aparentemente se deitava com os homens (e as mulheres eventualmente). Não era apenas sexo, era alimento. Balquis era ardilosa e intempestiva, desde que eu a conhecera. As palavras que ela proferira eram num dialeto muito antigo e significavam "Tu, que optou pela rejeição, herdará parte de mim e deixará sua melhor parte comigo". Por este motivo ele caíra em doença. Balquis era, além de um insaciável demônio, uma força poderosa em maldições. Meu amigo deu o azar de encontrar justo quem não devia e estava pagando por isso."

Removi o acessório e já sabia então o que fazer. Logicamente, não contei aos parentes os pormenores mas disse que ele sofria de algo que médico algum poderia tratar. Pelo estado mental da mãe, de tanto desespero, nem pediu detalhes e passou a obedecer cegamente o que eu pedia. Água numa bacia de porcelana, um pedaço de pano virgem vermelho, alho, alecrim, uma corda fina e uma faca de prata pura. Os que presenciaram se assustaram com o pedido da faca, principalmente porque não tinha utensílios de prata pura na casa - como a maioria dos lares atualmente. Dei minha chave ao tio e disse onde encontraria uma, em minha própria casa. O jovem oscilava entre a consciência e inconsciência, mas quando consciente, sorria para mim que estava ao lado de sua cama.

Logo, tudo o que eu precisava estava em mãos. Pedi que se retirassem e que apenas a mãe ficasse, para testemunhar que eu não faria mal à seu filho mas que, o que quer que visse, não acreditasse. Amarrei a corda no braço do jovem, a faca estava mergulhada na bacia com o pano vermelho preso, o alho e o alecrim. De repente, ele pareceu se contorcer ainda mais na cama, suava uma substancia negra com um odor insuportável e seus olhos reviravam nas órbitas. A mãe apenas chorava, pedi que não se aproximasse. A esta altura, as mesmas mariposas já infestavam as janelas da casa, por completo, e todos achavam aquele fenômeno algo sobrenatural e envolto na minha presença na casa. A corda que estava amarrada em seu braço começou a apertar e ele urrava de dor, mas não era ele, era a maldição - a parte de Balquis - que rugia. O pano vermelho, preso pela faca dentro da bacia, se agitava. Era algo terrível, mesmo para mim, que o amava. Tive pena dele, mas sabia que era melhor assim. Tirei a faca que prendia o pano vermelho, peguei-o e coloquei sobre a testa do jovem. Aquele momento, ele se sentou à beira da cama, mas não era mais ele, era a própria Balquis falando: "- Ora, ora. Mas se eu sou digna de vossa presença. Nunca em sã consciência eu mexeria com alguém que lhe pertence, senhor".

Eu ouvia Balquis pela boca do jovem. A mãe entrava num desespero ímpar mas com a porta trancada, nenhum dos outros parentes ousaria entrar e atrapalhar. Ela prosseguiu: "- Este belo jovem ousou me rejeitar. Ninguém rejeita Balquis. Minha maldição para ele foi bem trabalhada, acredite. Mas, se eu soubesse que o senhor seria envolvido, não o teria feito. Não quero problemas com Vossa Excelência, mas, como sabe, não posso desfazer minhas próprias maldições."

Eu disse que conhecia muito bem a fama e o que ela já havia me causado. Devo confessar, Balquis era uma velha amiga que precisou de mim certa vez e eu a ajudei. O preço foi algo que eu não esperava. Não permitiria que isso acontecesse novamente e disse a ela que esta seria resolvida mas se eu soubesse de mais alguma, ela seria exterminada. Ela sorriu entredentes, insatisfeita, mas nunca desacataria pois sabia que eu a encontraria onde quer que estivesse. Ela se desculpou, também entredentes e o lenço caiu da testa do jovem. Ele, voltou à cama e aos espasmos. O lenço, ao cair, tornara-se negro e pegajoso e quando a mãe se aproximou eu gritei para que ela não o tocasse mas que abrisse as janelas daquele quarto que alguns outros amigos se livrariam daquela impureza, depois. Com a faca ainda em mãos, dei um talho na minha destra o suficiente para que um pouco de sangue escorresse. Deixei a faca de lado - a mãe lembra aqui, a faca se tornou enferrujada imediatamente - e com a mão esquerda e a ajuda da mãe, tiramos a blusa do jovem. Com a mão ensaguentada, passei por seu pescoço, peito, abdome e olhos. A mãe observada com ares de pavor mas talvez este mesmo medo a impedia de qualquer atitude inesperada. O que eu criei com meu sangue, no corpo dele, era uma proteção. Algo que transferia a mim o que ele pesava. Logo, enquanto a mão o percorria, ele se acalmava e sua coloração natural voltava. Seus olhos estavam tranquilos e sua temperatura normalizava. Tudo muito rapidamente. O meu sangue, no corpo dele, tomava um aspecto dourado bruxuleante. Depois de criado, mergulhei a mão na bacia e a água, outrora translúcida, se tornou piche. Eu não me alterei em momento algum pois era imune a qualquer maldição ou afins.

Pedi a mãe que se livrasse do conteúdo da bacia e assobiei, para a janela. Ela se assustou quando milhares de mariposas adentraram o quarto e tomaram o lenço negro - outrora vermelho - e partiram, carregando-o. A faca, enquanto ela não via, esfarelei com a mão e espalhei o pó sobre as asas das mariposas, que adquiriram uma tonalidade também dourada. Quando estava prestes a me levantar, a mão do jovem segurou a minha e com olhos cálidos de cansaço ele apenas disse "- Obrigado. Quando eu percebi no que havia me metido também percebi que só você poderia me salvar. Você que me protegeu de tanta coisa e já me salvou mais vezes do que qualquer um sabe. E salvou meu filho. Não tenho como agradecer e ainda te amo..".

Ele não precisava agradecer, muito menos terminar com estas três palavras. Mas ele o fez. Por um longo tempo ele era o presente que os deuses me deram mas por causa disso, precisei Abdicar. E no final, ele era só humano. Um dia teve medo de mim e eu vi nos seus olhos como seria o futuro. Deixei-o, para que ele seguisse uma vida normal, como um homem normal faria. Porém, nunca sai de perto. Sempre o via em meus sonhos e sempre mantinha minha proteção. Falhei desta vez? Sim, falhei. Porque estou cansado. Cansado demais.

Me despedi dele, dizendo que não precisava agradecer e abstrai suas palavras finais. Ele se deitou na cama e caiu no sono. No sono normal dos humanos. Sua mãe regressou e disse-me que jogara a bacia fora com tudo o que havia dentro, ainda em prantos, quando ela notou que seu filho dormia tranquilamente. Novamente ela se pôs aos meus pés, agradecendo. Pedi para que se levantasse pois eu não era digno desta forma de agradecimento e que, o que fiz, faria por qualquer um que me pedisse ajuda sinceramente. Ela chegou a pensar em me questionar o que havia acontecido. Por precaução, antes que ela abrisse a boca, lancei uma nuvem em seus pensamentos com imagens de que seu filho apenas precisava descansar e que ela cuidasse muito bem dele. Fiz com que ela me acompanhasse e enquanto eu saia, fiz o mesmo com todos os que estavam na casa, deixando suas memórias vagas sobre o acontecido e colocando outras informações, menos fantasiosas no lugar.

Por fim, andei até minha residência enquanto as mariposas me acompanhavam. Sentei ainda um pouco na varanda para conversar com elas, agradecê-las pelo aviso e pela ajuda. Pedi noticias de todos os que eu acompanhavam e parecia que todos estavam bem. Logo, me despedi delas e entrei, me deitei e voltei a pensar como a vida teria sido mais simples se há milhares de bilhões de anos atrás eu tivesse simplesmente permanecido onde estava e com este pensamento, eu adormeci.



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Este é apenas mais um dos casos que já passei, durante este pouco tempo. Durante esta minha Quarta Abdicação.

Flauta, Noite e um coração desperto


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Estava eu, andando sozinho por uma noite escura, em busca de uma presa consideravelmente culpada por crimes hediondos. Não que eu sempre aja como o mocinho moderno e só beba dos maus, mas porque neste noite, em especial, eu precisava provar de um sangue sujo para equivaler ao que eu sentia corroer minhas tripas mortas. Era uma noite de Primavera, se não me engano, com um clima ameno e previsão de chuva, quase como hoje. Por uns vinte quilômetros eu andei, na minha velocidade, vasculhando cada coração em busca do corrompimento necessário para que a sede aflorasse.

Eis, quando, ao dobrar uma esquina pouco movimentada, vejo um jovem rapaz sentado à sarjeta. Havia uma caixa de forração ao seu lado. Notei que não haveria de ser um pedinte pois estava bem vestido e penteado, mesmo àquela distancia eu poderia ver. Seu coração era sensato mas, por um momento, era como se buscasse a morte ou estivesse desesperado por algo, que não conseguia encontrar. O jovem emanava uma aura de auto-flagelação e misericórdia que ainda não havia visto, era com se realmente buscasse algo além da morte, uma punição ou um perdão.

Fui andando em sua direção, havíamos apenas nós dois e mais uns poucos casais que não se deram conta da minha sorrateira aproximação. Fui diretamente a ele, buscando em sua mente exacerbada de emoções alguma razão para que um homem tão distinto estivesse naquelas condições. Ao me ver aproximando, primeiro ele se assustou, afinal já era tarde da noite (ou da manhã). Logo, se recompôs e abriu a caixa. Confesso que receei ser algum tipo de arma e meus olhos cintilaram de vermelho, quando numa fração de segundo eu segurei sua mão que buscava algo dentro da forração. Ele se assustou com o tom rubro dos meus olhos e minha velocidade ao percorrer tamanha distancia, mas notei que o que ele buscava não se tratava de nada mais do que uma flauta transversa. Era intenção dele tocar, talvez em troca de algum dinheiro. Tentei me esquivar de perguntas e o soltei, apenas para que ele se colocasse em posição e tocasse uma belíssima sinfonia para mim.
"Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim." - Adélia Prado, Trecho de "A Serenata"
Ele sorriu, empunhou sua flauta e em poucos segundos eu perdi meu chão. Sentia como se fosse um Sem-Forma novamente, cada som preenchia meu ego e minha existência como nunca antes. Cada toque, cada acorde, cada resfolegar dele me excitava. Ele tocava com tanto amor, paixão, sensibilidade, coração. Era como a Yamibue que tantos falam estar perdida. Naquele momento eu revivi mil eras e talvez mais. Pude ver seu coração partido, o porquê dele estar na sarjeta, suas frustrações, seus sonhos, seus desejos suas vontades e aquilo só aumentou meu desejo de tê-lo. De bebê-lo. Junte isso a uma bela figura loura com olhos azuis tão claros, um corpo palpável e uma pele tão branca que reluzia os lampiões que estavam nos iluminando. Não poderia me permitir chorar ou ele veria minhas lágrimas de sangue. Na rua, de repente, éramos só ele e eu, pleiteando a atenção das estrelas, ele com sua música e eu com o amor que me consumia.

Tocou toda a sinfonia e por fim, fez a reverência. Me agachei perto da caixa da flauta para dar-lhe algum dinheiro (o que me sobrava mas talvez faltasse-lhe) quando ele se recusou. E então, o que pediu em troca deixou-me boquiaberto. Como se não fosse um enorme passo, ele pediu-me em troca do dinheiro, um lugar pra dormir e onde pudesse se trocar. Novamente me pegou desprevenido. Não poderia imaginá-lo como um michê ou algo parecido e eu mesmo tinha minhas formas de me proteger. Pensei por uma fração de instante e, pelo mesmo orgulho que Hades manteve Orphíos no Erebus, acabei trazendo-o à minha casa. Tomamos um taxi (afinal, não tenho o costume de usar carros mas não poderia deixá-lo saber como eu me locomovia pelo dom das sombras) enquanto ele me falava sobre sua própria vida.

- Era um flautista em ascensão, nos seus tenros 25 anos de idade, e aprendera a flauta transversa desde os quatro. Naquele dia estava em um concerto, no Teatro Municipal e quando acabou, sentiu-se estranhamente vazio, como se tocasse por obrigação e não por prazer. Confessou-me que tocar para multidões o apavorava o que diferia quando tocada para um ou outro. Desde os 14 anos tocava profissionalmente em filarmônicas e progredia no instituto de artes e que, àquela altura, já estava saturado. Queria talvez uma nova vida independente, mesmo que precisasse da flauta para isso. Era um jovem de princípios, o que lembrou-me minha era, quando os jovens já eram homens e que hoje não passam e sempre continuarão crianças sem discernimento. Contou-me sobre os pais, irmã e sobre como vivia numa cidade próxima, para onde não pensava em voltar. Enfim, durante nossa viagem de uns quarenta minutos eu soube mais dele do que queria.

Em minha casa, bem situada num ambiente singular e emergente, convidei-o a entrar e cumprir o que pediu-me: trocar-se, banhar-se e aproveitei questionando se não queria comer algo (não poderia dizer que estava à vontade com estes preceitos). Ofereci algo que pudesse ser comprado e entregue, por telefone, quando ele reparou que em minha residência não havia uma destas máquinas que mantém as refeições conservadas. Enquanto ele se banhava, preparei roupas minhas para ele, telefone e pedi uma variedade de pratos da culinária japonesa (há tanto tempo que não como comida humana que não sei mais como é o apetite dos jovens). Alguns minutos mais tarde, ele saiu do banho vestido com meu roupão negro de seda, se desculpando e questionando se não haveriam roupas mais claras uma vez que todas as que dei a ele eram negras. Dei liberdade para buscar em meu closet algo que o agradava mas o segui de perto, afinal, ainda não o conhecia e como já deixei claro, não ia buscar em sua mente seus propósitos. Juntos, fomos ao quarto para que ele escolhesse. Chegando ao closet, ele deixou o robe cair e simplesmente ficou nu, em minha frente. Olhou para trás acanhado mas com uma certa intenção e eu desviei os olhos para dar-lhe liberdade.

Ele, após apanhar o robe, enrubescido, escolheu uma camisa vermelha e uma calça branca, sapatos pretos e um cinto vermelho. Ofereci uma bolsa para guardar suas roupas trocadas e ele aceitou. Mais uma coisa que ele notou: não havia cama em meu quarto. Isso eu pude ver em seus olhos mas, como ele não questionou, não precisei mentir ou omitir. Havia apenas uma esteira coberta com um edredom vermelho sangue e acredito que ele imaginou que eu me deitasse ali. Depois que estava quase vestido, a campanhia tocou e fui atender. Era o entregador. Paguei, deixei uma bela gorjeta, fiz com que ele esquecesse meu rosto e o deixei partir. Preparei precariamente a mesa e distribui a refeição. Quando ele veio do quarto, completamente vestido, tive mais uma surpresa. Como era belíssimo aquele homem e como era elegante e distinto, mesmo com seus 25 anos. Parecia uma destas marionetes antigas e por um segundo meus olhos ficaram azuis, tratei logo de retratar, convidando-o à mesa. Toda a refeição estava disposta somente para ele e ele me questionou sobre o que eu comeria, disse-lhe apenas que havia tido uma ótima refeição antes de encontrá-lo aquela noite (pobre desabrigado que me serviu de alimento, não pude parar de beber até que ele morresse, me livrei do corpo mutilando-o e espalhando-o - mas ainda havia sede). Ele comeu toda a refeição e bebeu do vinho branco que eu servi. Por fim, se levantou e veio em minha direção, parou bem defronte a mim e questionou como poderia agradecer. Eu disse que, continuando a tocar daquela forma e acalentando corações partidos já era um bom começo, além de viver como um bom homem (claro, era apenas uma fuga já que eu o desejava e me refreava).

Por sorte minha, ele não levou a serio e aproveitando que eu estava sentado à sua frente, sentou-se em meu colo. Beijou minha testa e meus olhos, logo depois  minha boca. E, como sempre, há o comentário sobre como minha pele é fria. Tocou meu pescoço, meu peito e se preparava para levantar minha blusa quando eu o interrompi, dizendo que não poderia fazer aquilo, que estava cansado mentalmente e confuso, seria um erro. Ele simplesmente sorriu com o sorriso mais doce que já vi num adulto e disse que fazia exatamente o que queria fazer, sempre, e que se houvesse um primeiro a fazer aquilo, que fosse eu. Discuti, dizendo que ele mal me conhecia e que não deveria ser desta forma, mas ele soube me dobrar com um longo beijo em que precisei esconder as presas que já saltavam, excitadas (e não só elas).

Um momento depois eu o peguei no colo e o levei para o quarto, para a esteira no chão com o edredom vermelho e comecei a tirar suas roupas recém-colocadas, peça a peça. O corpo que havia era esculturalmente belo, não como estes modelos de estátuas gregas, mas como um corpo bem cuidado de um jovem. Permiti que ele tirasse minhas roupas também e acabamos fazendo amor naquele chão. Só houve um momento de fraqueza meu ao, quando chegar ao clímax, acabei por morder seu pescoço e beber dele. Ele não notou, faz parte do nosso poder, o que inclusive deu mais prazer a ele. Depois de algumas horas, adormecemos - ele, na verdade, enquanto eu cobria os vestígios da mordida com umas gotas do meu sangue e me preparava para caçar. Ele dormiria sob feitiço, até o dia amanhecer. Me vesti novamente, mas agora com a camisa que ele vestira, queria sentir mais um pouco daquele cheiro enquanto ia à caça. Logo, achei uma prostituta que por poucas moedas "faria o que eu quisesse, até de ponta-a-cabeça". Paguei a mulher e sem misericórdia, quebrei seu pescoço enquanto bebia. Então, excitado, arranquei sua espinha e seu coração e bebi diretamente dele. Com o Fogo, livrei-me dos pedaços daquela carne imunda.

Andei mais um pouco entre os mais altos prédios da cidade, em busca de alguma resposta. Não as encontrei. Como faria para voltar pra casa, como faria quando ele, Vincent, acordasse e não me visse por lá? Talvez ele se sentisse rejeitado de alguma forma e se retirasse. Porém algo era diferente naquele garoto e eu podia sentir. Não me sentiria bem abandonando-o, mas não sabia se valeria mantê-lo por perto. Era algo com que eu mesmo precisaria lidar. Havia uma possibilidade...
Escuta a flauta de bambu,
como se queixa,
lamentando seu desterro:
“Desde que me separaram de minha raiz,
minhas notas queixosas arrancam
lágrimas de homens e mulheres.
Meu peito se rompe,
lutando para libertar meus suspiros,
e expressar os acessos de saudade de meu lugar.
Aquele que mora longe de sua casa
está sempre ansiando
pelo dia em que há de voltar.
Ouve-se meu lamento por toda a gente,
em harmonia com os que se alegram
e os que choram.
Cada um interpreta minhas notas
de acordo com seus sentimentos,
mas ninguém penetra os segredos de meu coração.
Meus segredos não destoam de minhas notas queixosas,
e, no entanto não se manifestam
ao olho e ao ouvido sensual.
Nenhum véu esconde o corpo da alma,
nem a alma do corpo,
e, no entanto homem algum jamais viu uma alma”
A flauta é confidente dos amantes infelizes;
Sim, sua melodia desnuda meus segredos mais íntimos...
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue, do amor...
Excertos do prólogo de MASNAVI de Jalaluddin Rumi


Continua...

11.05.2012

We're not alone - Broken Iris



At sunrise, open your eyes take a good look outside and wonder,
"is this right?" because deep down inside there's something that's left
To discover

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound
Singing...

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

When day turns to dusk
And you close your eyes and finally realize as you ponder
A battling storm in the sky

Is your grand design hand woven nor divine?
As right as the rain smells when it hits the ground
As safe as an infant feels in its mother's arms
Sleeping peacefully sound

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone

It's impossible to blink away
From this astonishing absolute beauty
And i smile just as you say

Set all your fears aside
Reveal what has grown through time
The overcast falls behind
Then you'll find

We're not alone softly she whispers
As out of control as this world seems to be
We're not alone