1.22.2012

Ao redor de mim habitam Feras


Ou serei eu a Fera?

Parte de mim é vista, conhecida. Parte anda incólume pelas sombras. Todas as partes têm desejos e procuram saciá-los, com compromissos ou casualidades.

Divago, ao correr a vida noturna, procurando em sortilégios infantis um toque do desejo masculino que tanto me faz falta, congelando a alma, enrijecendo o sexo e acima de tudo, criando a comunhão.

Moro só, com meus medos e vícios belicosos. Moro com minha ardente sexualidade, nunca satisfeita. Ao meu lado, mora a sensualidade em pessoa, já experimentada. Nossos espaços separados, nossas necessidades unindo-se vez ou outra.

Não uma ou duas vezes corri à sua porta durante a noite para consumar. Também viera a mim, em seus acessos de fúria, sabendo que somente eu poderia aplacar. Estranho como sempre há uma vontade que vai e uma substância que fica pois, ao acalentar usando meus meios, também sou beneficiado.

Horas foram as que se seguiam enquanto juntos estávamos, enamorados, unidos ao aroma agridoce de corpos tão semelhantes. Estranho também é saber que estamos sempre prontos, um para o outro. Parece irradiar de mim - sendo a recíproca verdadeira - um alerta feromônico de apetite. Sem poupar os detalhes, relato:

Possuir:
É somente o que me passa pela mente animalesca quando este algo a priori me possui. Como disse, é instintivo. Parece que, ao me colocar à sua porta, a chave gira e em minha esperança encontro o que preciso, ali, aguardando do momento e situação que fosse.

Invadir:
Primeiro o espaço, depois a boca com minha língua lasciva e então a percorrer o corpo, tomando cada centímetro de área possível. Nunca cedo antes do tempo previsto, continuo e continuo a redescobrir um corpo conhecido mas sempre mutante, a crescer em seus contornos rijos, ora andrógenos ora definidamente associativos.

Aplacar:
Depois de várias ações corpóreas é a hora do Prazer Primevo. Um beijo negro. Confesso que não me controlo e geralmente as marcas do descontrole são encontradas até semanas após estes atos. Seja braço, perna, costas, coxa, peito e sempre, pescoço. Ao beber, realizo os dois. Conheço a raiva há muito mais tempo do que qualquer ser humano e me dou melhor com ela, este escape é sempre uma arma em minhas mãos. Bebo de essência a suor, sangue, ira, desejo e cumplicidade. Se confio em poucos humanos para beber descaradamente, encontra-se aqui um exemplo. O fluido verte para mim sempre latejando (aqui sim, pouparei alguma cena que ainda consideram enjoativa e estritamente macabra, mesmo para minha espécie).

Consumar:
Depois de beber, devorar. Já domino, posso remeter agora ao prazer carnal. E que prazer! É como cem beijos negros simultâneos quando se possui um corpo desta forma. Ruborizando faces, invadindo corpos sem precaução alguma, tomando o que é meu por direito, alucinando enquanto os movimentos fluem sempre mais ágeis, insubmissos, sem medo de empregar força demasiada.

Morrer:
Sim, morrer. Atingir o clímax e notar que está morto, há eras. E será sempre morto enquanto não tiver mais deste milagre.

E então, como corpos confundidos com a grande pintura apresentada para os céus, dispersar até que o corpo se recupere. Selo as feridas com meu próprio sangue milagroso, mantenho a constância dos beijos. Tem sido assim há algum tempo. Espero que termine logo.

Se alguma uma entidade da Noite disser que vive apenas de noite, ela mente. Não podemos. Vivemos - ou fingimos - de vivências na noite, não dela própria. Precisamos de toques, aromas, potências, desejos abatidos e contabilizar almas perdidas. Este acabará sendo meu legado.

Nenhum comentário: