Há algumas noites, após um longo dia de trabalho, eu decidi caminhar pela rua. Havia sido um dia cansativo, estressante e - para nenhuma surpresa - eu havia me superado. Precisava pensar no modo como minha vida seguia, com minhas virtudes sendo desqualificadas a cada dia mais e meu grande amor negligenciando minha presença. Como citei, havia sido exaustivo o dia e ainda mais atordoante saber que havia passado por ele sem uma prova de carinho sequer.
Há um tópico a acrescentar que, em minha própria morada e nas adjacências, as pessoas ignoram minha presença. Depois, claro, de tanto tentar envolver-se em minha vida pessoal. Por ser um homem de hábitos noturnos que passa a maior parte do dia em regime de trabalho e aos finais de semana sempre oculto, acredito que tenha gerado uma certa curiosidade. Pois bem, esta sutileza muito me ajuda nos passeios.
Conheço as vozes que falam em minha mente.
Pois bem, caminhei até o limite da rua e voltei. Diversas vezes. Na pressuposta última, parei em meu próprio portão e notei que havia um cão acomodado. Belo cão por sinal, malcuidado mas com certo porte. Sentei ao seu lado e acariciei-lhe o dorso. Ao tocá-lo, acredito que ele tenha notado o que eu levei mais um décimo de segundo para perceber.
Em seguida, talvez pelo que tenha sido gerado ao toque, o cão me questionou sobre o motivo de minha fuga. Sem a mínima altercação disse-lhe que eu fugia há tanto tempo que nem lembrava mais o porquê - animais e eu nos falamos, sempre que possível e principalmente quando uma das partes precisa de um conselho. Foi este o estopim para uma conversa que, graças aos Céus, rendeu-me tão valorosa gratidão ao cão.
Conversamos sobre este ponto em questão: ele, assim como eu, fugia. Num patamar mais doméstico, a fuga dele era por maus tratos. Descendia de uma nobre raça e não admitiria sofrer nas mãos de quem, por cinco vezes, protegera. Nobres nem sempre são altruístas, constatei e isso valeu-me de lição. Conversamos sobre tempos antigos, fidelidade, amores, crias, redenção e, desesperado, comecei a falar de mim mesmo e de minhas recentes abominações. Falei para ele dos meus desejos de amar e procriar, de matar, de vingar, de ousar e de desaparecer, como sempre busquei. Transcrevo aqui as palavras que ele, vivendo neste mundo há quatro anos humanos e vinte e três anos caninos, me disse:
"Não é justo, sabemos. Não é bonito, também sabemos. Herdar um trono maculado não deveria ser permitido. Porém um rei cai para que o outro assuma e o reino pode ser lavado. Uns optam por sediá-lo em sangue, outros por confraternização. O que quero dizer em suma é que você tem a escolha, não seus pais. Eles o trouxeram aqui mas não podem guiar sua jornada. Talvez, eu tenha sido metafórico demais quando me referira a seus pais, sabendo que o senhor não deriva de carne de homens. O que realmente consta é que, estando aqui se tornará verdade o que disser assim como será no céu. Corra, busque sua eternidade, esconda-se, exponha-se, erre, cresça e chore. Tudo é válido. Deseje e incentive, não tente ser maior diminuindo os outros sabendo do seu potencial ilimitado. Caso o céu precise do senhor, novamente ele o chamará. Enquanto isso, aproveite a vida que o senhor escolheu. Sim, foi uma escolha há algum tempo, mesmo que não tenha consciência. Optou cair para estar aqui e agora pretende voltar sem ao menos ter tentado? Não arriscaria chamá-lo de fraco, mas ousaria dizer que o senhor não chegou onde pode chegar. Cumpra seus próprios decretos, rejubile-se quando puder. Teu tempo aqui é maior do que o deles e flui de forma diferente, já notara antes. Cabe portanto fazê-lo grande da melhor forma. Deseje, mas não fique apenas nisso. Deseje e cumpra. Minha vida aqui é determinada e mesmo assim eu optei ser um amigo do homem que me criou, pude protegê-lo e aos seus, até que ele confundiu-se com seus próprios vícios e começou a me ver como ameaça. Entendo que poderás passar pelo mesmo, nosso porte os assusta. Temem o que acham que podemos fazer para com eles. A quem nasce feroz não importa o tom de voz, ouvi certa vez um homem velho falar. Mas nascer feroz não é escolha, ferir é. Senhor, sempre será sua decisão acima de qualquer coisa e, se por mim ou de mim precisar, poderá contar sempre."
Estas palavras me fizeram voltar à superfície de minha alma e, ao olhar os olhos sinceros do cão - seu nome não poderia ser mais imponente, Rei - pude ver os meus próprios. Pensei na minha sede de sangue e no quanto abstrai-me para não incentivá-la. Pensei nos amores que deixei passar tomando a decisão por eles do risco que corriam. Pensei nos amigos que não tive porque temi a minha própria exposição e hoje, por meios completamente novos ao meu tempo, eu mesmo ignoro de forma tão brutal.
Ficamos mais alguns minutos em silêncio, apenas um e outro, sentados lado a lado como velhos amigos. Logo após, ele se despediu de mim, com carinho e afeto e disse que em qualquer instância em que eu precise dele, ele poderá ser chamado. Simplesmente precisava ir para muito longe mas que voltaria, algum dia breve, afinal não são muitos que ainda falam - e ouvem - os cães nos dias de hoje.
Isto aconteceu há apenas algumas noites mas para mim ainda está tão latente quando este momento enquanto escrevo.
Obrigado, Rei, pelas palavras.
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