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Ele estava em sua cadeira de estofamento aveludado rubro, de madeira antiga, sentado de forma casual, a pensar no que há depois de amanhã e quando esta sensação de Traição cessaria. De repente, um cheiro inebriante de hibiscus, valeriana, erva-de-coração-de-bruxa e sangue coagulado pairou no ar de forma violenta e confusa, atraindo sua atenção, junto de um ruído bem exato às suas costas.
Ao mesmo tempo, houve alguns retalhos no mundo. Talvez o vento, a chuva que estava prestes a cair, uma respiração e uma criança que estava para nascer - todos enclausurados dentro de si. Logo percebido, era um demônio que vinha até ele. Seu nome, Buer - o Sábio, cabeça de leão com cinco patas que giram em volta do seu corpo levando-o em todas as direções sem precisar virar a face. Junto dele à direita, Harpócrates e à esquerda, Vermelho. Estes últimos dois grandes amigos do passado. Todas aquelas entidades juntas provocaram um arrepio insensato e inesperado, atraindo pensamentos mascarados e letargia emocional.
"- Pois então, vim." - Soou a voz do demônio. "- Vim por que precisavas de mim e de meus conselhos, vossos amigos foram à minha presença contar-me o que está a acontecer e pelos Rubros Sete Magníficos, preocupei-me com vossa força e presença inconstante."
"- Não é nada" - Falou o jovem sentado à sua cadeira. "- Nada que mais mil anos não resolvam depois que a decisão for tomada." - Parecia cansado, confuso, débil, com os olhos marejados e uma sombra sanguínea a percorrer a tez.
"- Temo que desta vez não possa ser assim." - Mais uma vez o demônio falou.
"- Se não for assim, não será."Do mesmo modo que o mundo parecia congelado, assim era o desenvolver do pensamento. Ou diferente, pois parecia fugir contra a ordem e voltarem um a um desde o princípio. Era como rever todas as decisões tomadas que o fizeram chegar até ali. Pôde rever o início do mundo, sua paixão pelo primeiro homem, seu primeiro pecado, sua exclusão da vida, sua primeira sede, sua primeira morte e seu despertar. Notou-se tão pequeno agora que mal caberia na mão de um deus sem escoar por entre os dedos.
"- Diga-me o que queres saber que ainda não sabes. Eu direi. Falas de Traição mas não a compreende, não conhece o coração do homem para quem vive e por quem continua aqui. Não conhece sequer o próprio coração adormecido. Tua visão embaça ao espiá-lo e teus crimes são contra si mesmo. Perdoa-me esta direção do assunto, in veritas, mas preciso caber dentro da sinceridade e do respeito que tenho por vós para que entendais e compreendais vossa sua própria situação. Nunca digas que alguém o trai até que seja feito, não culpeis um inocente mais uma vez. Vejais, com a ajuda dos seus grandes Basanos a verdade que há, não percas o que lhe resta de divino, uma vez que sua primeira decisão fora abandonar este nosso mundo. Tua morte não pode ser morte, sabes bem disso porque tu és proibido de morrer. Teu corpo que se mostra, tua alma, teu poder, tua presença, tudo evapora quando não é aproveitado. Podes mudar a direção da Terra e dos outros mundos se quisesse mas não consegue esquecer? Por dez legiões dos que já foram, aposto minhas cento e trinta e oito armadas como o senhor há de perdoar. Perdoar a si mesmo, entender o quão grande pode ser se apenas se permitir. No Céu e no Sheol és bem vindo e temido, pelos próprios deuses é deus e dos anjos e demônios, senhor. Nove vezes Nove seu Nome e seu poder permaneçam à minha frente para que eu tenha meu próprio poder para prosseguir." - Rugiu a cabeça de Leão sem mexer um músculo sequer.
O jovem permaneceu inalterado, como se apenas uma brisa passasse por ele sem pedir. Não havia emoção, não havia nada em sua aparência delicada que sugerisse comportamento. Ele desejou poder matar, beber, assustar e dançar por sobre uma nuvem carregada de trovões, como sempre fazia quando tinha medo ou precisava de companhia. Desta vez, ele não pôde, havia algo de diferente na forma como encarava o mundo. Ele ignorou o Leão, enquanto se aproximava e lambia seu rosto complacente. Estava vazio de forma e substância, a um passo de se deixar ser esquecido e acabar com todos os problemas de uma só vez.

Um comentário:
E, mais uma vez, a palavra TRAIÇÃO, que constou no título anglofílico anterior, volta a se manifestar no texto...
Tem como não pensar em catarse depois disso? Glupt!
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