2.10.2013

"O vinho entra, a verdade sai..."


Já diz o ditado citado.



Cinco anos se passaram. Cinco anos mortais desde que nos falamos pela primeira vez. Cinco anos e algumas horas, eu consigo contar o tempo por mais que diga que não. Meus cabelos e minhas unhas cresceram, assim como meu ego e minha saciedade de plenitude. Muita coisa aconteceu, entre boas e ruins restaram algumas a serem lembradas: os passeios, os beijos públicos, o companheirismo de outrora, a libido (que mesmo após o segundo ano parecia não ceder à maturidade conjugal) e a confiança depositada.

Criei um diário, registrei momentos incompreensíveis inicialmente, guardei memórias, traições, desejos repreendidos, insanidade, luxúria. Mantive a mim mesmo cativo por este amor. Amorem.

Tornei-me parte de meu próprio veneno e segui minha vida como um rélis humano masculino.
"Quando eu era menino agia como menino, falava como menino, sentia como menino e discorria como menino. Hoje eu sou um homem e deixei para trás as coisas de menino." I Coríntios 13.11
Cinco anos depois, minha vida se fragmenta. Pedaços inteiros caem de mim enquanto ando, penso, falo. Bebo de almas mortas tentando reverter meu envelhecimento mas é fato que não conseguirei. Ficarei velho, fraco, sozinho e apenas o vinho me manterá vivo enquanto houver. Vivemos tempo demais para estarmos sozinhos, a cada era tocamos um humano para que ele nos guie. Tem sido assim há tanto tempo que nem me recordo o primeiro. Mentira, recordo sim do primeiro que tirei do mundo mortal. Recordo-me também da maneira como tive de desprezá-lo antes que se tornasse perigoso. Este, de agora, era tão dócil, tão afável, carinhoso, amável, limpo. Um verdadeiro Chevalier da Alta Sociedade Nobre, mas, este também se foi.

Hoje, escrevo sobre suas virtudes que desdenhei até ontem. Hoje, sinto falta de algo nele que, mesmo me incomodando, dava a certeza da sua presença. Hoje, me tornei menos homem do que era quando comecei esta jornada. Hoje, me tornei mais fera. Hoje eu me sinto novamente como o deus que foi criado sob a Estrela da Solidão e que foi lapidado de mármore vermelho das vestes do demônio-primordial. Hoje, toda uma floresta se tornou pequena para conter minha ira contida. Hoje, os espelhos se partiram ao me ver - sendo eu algo nunca visto por eles. Hoje, eu apresento minha dor ao mundo.
"Sei que sou sólido e são,
para mim num permanente fluir
convergem os objetos do universo;
todos estão escritos para mim
e eu tenho de saber o que significa
o que está escrito." Walt Whitman
 Sei que minha dor é infundada, admiti que sua felicidade superaria à minha. Penso, mas não existo, porque aprendi a ser egoísta como o homem que me criei. Não encontro uma palavra da minha vasta coleção de idiomas que possa refletir sequer um décimo do que estou sentindo. Não tenho sono, não tenho sede ou fome, não tenho prazer. Não tive vontade de me servir esta noite, sorver o ambiente e ir à caça para me manter. Penso em voltar à dormir por mais cem anos. Não posso morrer à esta altura mas posso me retirar da sociedade mais uma vez. Existe uma música que reverbera na minh'alma que me acalenta enquanto escrevo. E penso. Uma música que me pede para ser forte mesmo nas horas mais escuras, que me induz a ser bravo mesmo nos momentos de insensatez, que me elogia pela sobriedade. Uma música que deve ser um primor dos deuses-irmãos que não me permitiriam mais estar entre eles e que precisam me manter neste mundo.

Matei muitos homens, mulheres e até crianças. Matei porque precisei, antes de aprender. Tão somente hoje queria que todos eles pudessem voltar e me levar. Nesta noite eu busco a morte que não poderei encontrar.
"Não temas a morte - quanto mais cedo morreres, mais tempo serás imortal." Benjamin Franklin
Para cada pena há um desejo. Para cada desejo, algo meu é consumido. Para cada pena que cedi, me tornei elo com o que foi realizado, seja bom ou mau. Me tornei a cólera, a febre negra, a política. Mas, também me tornei a vacina, o fogo e a justiça. Vivi tanto tempo caminhando sobre a Terra que não posso mais. Não com esta forma, mais. Mudarei e isso é resoluto, como sempre fora. E quando a Tempestade acabar, poderei ser eu novamente. Cinco anos. Cinco anos e repenso minha existência por completo. This is fear?

Por cinco anos eu o amei em vislumbre. Por outros milhares de anos eu o amei enquanto esperava que ele fosse feito. Por mais milhões de anos o amarei e o deixei partir. Começarei a contar o Tempo em eras, esperando pelo próximo retorno dele e quem sabe, da próxima vez eu também faça tudo certo e possamos ficar juntos.

Epílogo:

Perdoa-me! Perdoa-me e aos meus desejos depravados. Às minhas loucuras e meus devaneios. Toma-me novamente em seu coração. Toma-me. Ame-me, ame a mim da mesma forma que há cinco anos atrás me amou. Be my man. Seas mi hombre. Eu amei tanto as estrelas porque tinha medo de estar sozinho e de volta à solidão...
"Os homens tropeçam por vezes na verdade, mas a maior parte torna a levantar-se e continua depressa o seu caminho, como se nada tivesse acontecido." Winston Churchill

Um comentário:

Gomorra disse...

Ótimas cotações...
Belíssimas confissões...

IN VINO VERITAS indeed!

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