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Noite de inverno.
Gélido como só os montes podem ser. Século XII se não me engano, estava eu caminhando pelas montanhas, em busca de alguma satisfação solitária. No meio da floresta havia um lago tão cristalino - e congelado - em que, se eu tivesse ainda algum reflexo, poderia me ver espelhado. Mesmo sabendo do destino que me reserva, voltei-me a ele nesta mesma expectativa. Pensei "- quem sabe no gelo, que não contém prata alguma, eu possa ver em mim o que o tempo fez comigo?".
Tal qual foi meu espanto quando pude ver-me novamente. E que imagem! Era algo entre o disforme e o angelical. De tanto vislumbre acabei por deslizar pela pedra congelada e me abster em adoração pelo que via. Embriaguei-me de mim mesmo de modo que não notei quando alguém se aproximou, mesmo naquela noite gelada. Não notei até que ela estava a uns quatro pés de mim. Não só não a notei como não senti seu perfume - ou odor, que seja - a ponto de surpreender-me com aquela presença. No mesmo momento postei-me rijo, preparado para atacar ou correr, dependendo da reação que apresentaria.
Espantou-me sua ação seguinte: ela curvou-se. Curvou-se para mim e numa língua que só nossa raça conhece pela idade, chamou-me de senhor. Percebendo mais a fundo pude ver que ela era como eu - ou quase. Uma recém-nascida pelo sangue, poderosa e linda e ao mesmo tempo respeitosa e meiga. Falava em minha mente, mas de uma forma descoordenada. Vi que ela havia sido criada há menos de dez anos humanos e que seu mestre a havia abandonado por ela "se apegar demais à humanidade". Pior, eu conhecia quem a fez, na verdade, eu o havia liquidado alguns anos após ele tê-la feito por uma disputa antiga (e isso é outra história futura, talvez). Me compadeci de sua dor - momentaneamente, afinal não sinto mais certos sentimentos - e pensei em tomá-la para mim, criá-la, adotá-la como minha cria mesmo não sendo. Ensiná-la o que sabia, era só o que eu pensava. Estava começando a Era das Trevas e mais do que antes eu temia pela minha sanidade e precisava de uma companhia que me entendesse depois de já ter tentado tantos humanos.
Senti que ela também esperava isso, esperava uma companhia, alguém de nossa espécie que a ensinasse onde seu senhor havera falhado. Tomei novamente a compostura e com dois passos cruzei o caminho que nos distanciava. Olhei dentro dos seus olhos e ela se inclinou, se oferecendo à minha bebida. Bebi e pude ver ainda mais, vi porque seu criador a escolhera e porque ele, depois, temendo-a, a deixou à deriva neste mundo absorto e vil. A jovem tinha um estranho dom de possuir o que tocava, mesmo quando ainda era humana. Ela podia entrar em sonhos de uma pessoa adormecida e podia domá-las, falar por elas, apenas com seu toque. Caí num frenesi de excitação pois nunca havia conhecido alguém, homem ou monstro, que pudesse tal artimanha sem algum tipo de feitiço. Dali tomei a decisão de que ela seria minha enquanto eu quisesse mantê-la!
Coloquei meu braço ao redor de sua cintura e partimos dali, com o Dom das Nuvens, que ela não conhecia pois se espantou tanto que seu corpo tremia junto ao meu firme, enquanto alcançávamos alturas inimagináveis. Ela acabou se mostrando irrequieta e insegura, temerosa, afinal era jovem e ainda não conhecia tanto nossos dons como conhecia seu próprio. Logo, chegamos à uma clareira, naquela mesma montanha, onde havia uma pequena caverna à direita e um lago - menos congelado que o anterior - à esquerda. A deitei em uma pedra e começamos a conversar como os humanos fazem.
Senti que ela também esperava isso, esperava uma companhia, alguém de nossa espécie que a ensinasse onde seu senhor havera falhado. Tomei novamente a compostura e com dois passos cruzei o caminho que nos distanciava. Olhei dentro dos seus olhos e ela se inclinou, se oferecendo à minha bebida. Bebi e pude ver ainda mais, vi porque seu criador a escolhera e porque ele, depois, temendo-a, a deixou à deriva neste mundo absorto e vil. A jovem tinha um estranho dom de possuir o que tocava, mesmo quando ainda era humana. Ela podia entrar em sonhos de uma pessoa adormecida e podia domá-las, falar por elas, apenas com seu toque. Caí num frenesi de excitação pois nunca havia conhecido alguém, homem ou monstro, que pudesse tal artimanha sem algum tipo de feitiço. Dali tomei a decisão de que ela seria minha enquanto eu quisesse mantê-la!
Coloquei meu braço ao redor de sua cintura e partimos dali, com o Dom das Nuvens, que ela não conhecia pois se espantou tanto que seu corpo tremia junto ao meu firme, enquanto alcançávamos alturas inimagináveis. Ela acabou se mostrando irrequieta e insegura, temerosa, afinal era jovem e ainda não conhecia tanto nossos dons como conhecia seu próprio. Logo, chegamos à uma clareira, naquela mesma montanha, onde havia uma pequena caverna à direita e um lago - menos congelado que o anterior - à esquerda. A deitei em uma pedra e começamos a conversar como os humanos fazem.
"Seu nome era Ludmylia e era uma foragida. Primeiro de sua família, depois de sua aldeia, e então do seu criador que a encontrou vagando sozinha naquela montanha. Quando ela viu aquele homem, vestido àquela forma, achou que usando de seu dom poderia fugir para ainda mais longe pois sentia nele algo diferente. Claro que ele deixou ser visto para não afugentá-la - era uma de suas táticas vis que eu desprezava tanto. Ela viu que mesmo ao se aproximar, a figura não deixava de sorrir e convidá-la com os olhos e, pensando em tomar aquele corpo aparentemente forte, continuou a caminhar em sua direção. Quando a dois centímetros de toca-lhe o rosto, sua mão a parou. Naquele momento então ela agonizou e temeu. Ele mantinha o sorriso e numa fração de segundo, já bebia dela pelo pulso que havia agarrado. Parecia que ele a conhecia, que a esperava, que a testava e queria saber até onde ela poderia ir. Fraca e quase sem vida, ela ousou. E conseguiu! Usando do seu sangue vertido como catalisador, conseguiu por poucos instantes tomar o corpo do homem que, ao se ver enclausurado na própria prisão carnal, abandonou a bebida e se lançou para trás. Ao constatar que ela o surpreendera, ele compreendeu ainda mais a vontade de tê-la e que precisaria ser rápido pois ela estava à beira da morte. Cortando de seu próprio pulso, a deu de beber e assim fez dela uma de Nós. Tentou não passar a ela seus dons, com medo, porém não pôde controlar e acabou a fazendo mais poderosa do que imaginaria. Ao beber dela ele não herdara seu dom como imaginava, apenas a deixou mais forte quando deu-lhe seu Beijo Negro. Então ele a adotou e começou a ensiná-la, sempre mantendo a distância segura e assim cinco anos se passaram. Nela, ele notou um estranho apego ao que sentia desde antes, achou-a fraca e como é comum de nossa espécie, abandonou-a simplesmente, uma noite. Sem despedidas ou formalidades. Desde então ela vagava pelas mesmas montanhas, sem aprender mais nada a não ser a dor da solidão e desprezo."Devo confessar que não tive pena. Conhecia sua história e pronto. Sentia que ela esperaria que eu fosse diferente do seu criador e que a tomasse, cuidasse dela e a protegesse. Ou seja, o que toda menina humana espera de uma figura masculina e isso me entristeceu. Concordei com a lembrança do seu criador de que ela não era para nós já que não imaginava o que poderia fazer com o Beijo e o que herdou com ele, parecia não entender que havia deixado o mundo humano e que agora poderia ser o que quisesse. Mesmo com tudo, sua fragilidade ainda me mantinha ligado à ela pois me recordava alguém que amei muito, muito tempo atrás, e que acabei perdendo por imaturidade minha. Ambos, acredito, colocamos nossos amores na figura um do outro e por este motivo, apenas, eu permiti que ela andasse comigo.
Descemos a montanha na noite seguinte em busca de alimento e, enquanto eu bebia de dez ela se manteve em apenas um homem que muito se parecia comigo. Notei que ela nutria ao mesmo tempo amor e raiva por aquele tipo e que se alimentava deles quase como que por vingança. Percebi também que ela usava seu dom para coisas fúteis e desnecessárias. Novamente, lamentei pela sua criação e pelo erro do criador. Mais algumas noites se passaram e os atos se repetiam: ela se alimentava dos homens, se deitava comigo quando parecia amanhecer, na montanha, e repetia a mesma intempérie na noite seguinte, em outra cidade. Ela era cansativa e nada interessante, exceto pelo seu dom. Noite após noite eu me cansava, mas ela não notava.
Meses, talvez anos, tenham se passado nestas condições quando de uma certa cidade, já exangue pela cristandade e a Era das Trevas com sua santa inquisição, começou a caçar seres que ameaçariam os seus. De predadores nos tornamos presas, aparentemente, pois eu não os temia. Ela, au contrárie, ainda se atendo à humanidade, tinha medo de ser pega e não poder fugir, como era quando da sua infância. Dado destino, certa noite, enquanto nos alimentávamos, um grupo de cerca de doze homens nos cercaram. Eu, sem esboçar que aquilo parecia um risco, mantive minha calma. Ela porém, ardia em febre de pavor. Parecia que completamente havia esquecido o que se tornara e voltara a ser a menina indefesa que era antes. Confesso que não recuei, não me movi um centímetro sequer, enquanto ela partia para cima deles, inconsciente da força que poderia aplicar e do poder que tinha.
Eu, cansado da sua presença fraca e pouco competitiva, a deixei ser capturada. Quatro deles foram suficientes para domá-la, não porque ela era desprovida em termos de física, mas era em termos mentais. Os outros oito se voltaram contra mim e na mesma fração que piscaram os olhos, estavam retalhados e sequer viram a morte chegar. Enquanto a levavam eu não me mexi, mesmo sob seu olhar fulminante. Minha última esperança era de que ela se recordaria do que era ou que ao menos usaria seu dom e tomaria um dos homens, expondo os outros à loucura. Nada disso fez, se deixando levar em desespero e em sua mente ela me apedrejava. Eu segui o cortejo inquisidor e em nenhum momento ela ousou, apenas se deixou intimidar.
Não tive pena, novamente, quando prepararam a pira e quando o fogo já estava alcançando os mesmos céus que eu a levara antes, eles a lançaram. Não senti tristeza ou dor ao vê-la sendo rapidamente consumida, não por eu ser um monstro, mas por achar que era seu destino. Quando não servem a nós, servem a si mesmos e, então, morrem por sua própria vontade. Logo ela não era mais nada, como sempre pareceu ser, apenas uma dama que tinha um dom extraordinário e não sabia usá-lo. Ou não parecia saber.
Depois deste fato, voltei a caminhar para a floresta, passando por um campo cultivado de milho de um daqueles mesmos camponeses que liquidaram a existência da minha breve companhia. Perambulando, deparei-me com uma destas réplicas que fazem de si para espantar aves de rapina que destroem as plantações e sorri, pois realmente me confundira fazendo acreditar que era um deles. Meu sorriso se transformou em seriedade e mordi meus próprios lábios quando a réplica (que hoje descobri que chamam-no de Espantalho) se jogou em minha direção. Me afastei como um trovão e ele caiu aos meus pés. Olhei em volta, imaginando quem poderia ter feito aquilo e então a réplica se levantou. Havia um estranho brilho verde por sobre ela e então começou a se contorcer e trazer as mãos ao rosto, como que chorando. Se contorcia de forma aparentemente dolorosa e chorava, sem emitir um som, seu corpo caricato ainda mais deformado enquanto se partia por todos os lados e ainda levando as mãos ao rosto. Veio em minha direção e por um instante, pela surpresa, não pude me mexer: a réplica pegou meu braço e colocou ao redor de sua cintura - o mesmo ato inicial que eu havia feito com Ludmylia - e então percebi que era parte dela que tomava àquela réplica e que, com aquele sinal, mostrava-me sua identidade. Logo, deixou-me e se contorceu ainda mais, por uma última vez, quando o brilho de tom musgo também desapareceu e a réplica deixou à vida, caindo no campo de milho como se nunca houvesse mexido uma polegada, porém, destroçado.
Esta foi a primeira vez que tive a certeza do dom de Ludmylia e o quão poderoso poderia ser se ela pudesse ter aprendido a usá-lo. Tive medo e senti tristeza então, me repreendi, por não ter visto seu potencial. Deixei que meus milênios me tornassem inóspito ao companheirismo. Também foi a primeira vez que vi um espírito dos nossos e não sei até hoje se era apenas parte do que sobrou de etéreo dela. De uma forma estranha também me senti confortado pois comecei a imaginar que não somos tão vazios quanto dizem e que talvez, mesmo quando nos formos, parte de nós possa se manter atrelado à este plano. Hoje, sinto falta de Ludmylia pois tenho andado muito sozinho mas, desde aquela noite, não presenciei mais alguma manifestação dela ou qualquer que seja. Logo, permaneço sozinho.
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Meses, talvez anos, tenham se passado nestas condições quando de uma certa cidade, já exangue pela cristandade e a Era das Trevas com sua santa inquisição, começou a caçar seres que ameaçariam os seus. De predadores nos tornamos presas, aparentemente, pois eu não os temia. Ela, au contrárie, ainda se atendo à humanidade, tinha medo de ser pega e não poder fugir, como era quando da sua infância. Dado destino, certa noite, enquanto nos alimentávamos, um grupo de cerca de doze homens nos cercaram. Eu, sem esboçar que aquilo parecia um risco, mantive minha calma. Ela porém, ardia em febre de pavor. Parecia que completamente havia esquecido o que se tornara e voltara a ser a menina indefesa que era antes. Confesso que não recuei, não me movi um centímetro sequer, enquanto ela partia para cima deles, inconsciente da força que poderia aplicar e do poder que tinha.
Eu, cansado da sua presença fraca e pouco competitiva, a deixei ser capturada. Quatro deles foram suficientes para domá-la, não porque ela era desprovida em termos de física, mas era em termos mentais. Os outros oito se voltaram contra mim e na mesma fração que piscaram os olhos, estavam retalhados e sequer viram a morte chegar. Enquanto a levavam eu não me mexi, mesmo sob seu olhar fulminante. Minha última esperança era de que ela se recordaria do que era ou que ao menos usaria seu dom e tomaria um dos homens, expondo os outros à loucura. Nada disso fez, se deixando levar em desespero e em sua mente ela me apedrejava. Eu segui o cortejo inquisidor e em nenhum momento ela ousou, apenas se deixou intimidar.
Não tive pena, novamente, quando prepararam a pira e quando o fogo já estava alcançando os mesmos céus que eu a levara antes, eles a lançaram. Não senti tristeza ou dor ao vê-la sendo rapidamente consumida, não por eu ser um monstro, mas por achar que era seu destino. Quando não servem a nós, servem a si mesmos e, então, morrem por sua própria vontade. Logo ela não era mais nada, como sempre pareceu ser, apenas uma dama que tinha um dom extraordinário e não sabia usá-lo. Ou não parecia saber.
Depois deste fato, voltei a caminhar para a floresta, passando por um campo cultivado de milho de um daqueles mesmos camponeses que liquidaram a existência da minha breve companhia. Perambulando, deparei-me com uma destas réplicas que fazem de si para espantar aves de rapina que destroem as plantações e sorri, pois realmente me confundira fazendo acreditar que era um deles. Meu sorriso se transformou em seriedade e mordi meus próprios lábios quando a réplica (que hoje descobri que chamam-no de Espantalho) se jogou em minha direção. Me afastei como um trovão e ele caiu aos meus pés. Olhei em volta, imaginando quem poderia ter feito aquilo e então a réplica se levantou. Havia um estranho brilho verde por sobre ela e então começou a se contorcer e trazer as mãos ao rosto, como que chorando. Se contorcia de forma aparentemente dolorosa e chorava, sem emitir um som, seu corpo caricato ainda mais deformado enquanto se partia por todos os lados e ainda levando as mãos ao rosto. Veio em minha direção e por um instante, pela surpresa, não pude me mexer: a réplica pegou meu braço e colocou ao redor de sua cintura - o mesmo ato inicial que eu havia feito com Ludmylia - e então percebi que era parte dela que tomava àquela réplica e que, com aquele sinal, mostrava-me sua identidade. Logo, deixou-me e se contorceu ainda mais, por uma última vez, quando o brilho de tom musgo também desapareceu e a réplica deixou à vida, caindo no campo de milho como se nunca houvesse mexido uma polegada, porém, destroçado.
Esta foi a primeira vez que tive a certeza do dom de Ludmylia e o quão poderoso poderia ser se ela pudesse ter aprendido a usá-lo. Tive medo e senti tristeza então, me repreendi, por não ter visto seu potencial. Deixei que meus milênios me tornassem inóspito ao companheirismo. Também foi a primeira vez que vi um espírito dos nossos e não sei até hoje se era apenas parte do que sobrou de etéreo dela. De uma forma estranha também me senti confortado pois comecei a imaginar que não somos tão vazios quanto dizem e que talvez, mesmo quando nos formos, parte de nós possa se manter atrelado à este plano. Hoje, sinto falta de Ludmylia pois tenho andado muito sozinho mas, desde aquela noite, não presenciei mais alguma manifestação dela ou qualquer que seja. Logo, permaneço sozinho.
In Memoriam Ludmylia Schirivaniskova - Que amava tanto à humanidade que, mesmo ao se tornar um dos monstros, não se perdeu dela como Todos nós fazemos.
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