1.27.2012

Nomes sem valor


Grigori Yan era seu nome.

Ele não era mais do que isso, um nome. O homem que havia por trás não era dos melhores, mas este nome era imponente e forte tal qual seu dono jamais seria.

Eu dei o nome. Nomeei algo que não conhecia e talvez tenha pecado. Admiti momentos de alegria noturnas com outros nomes - completamente esquecidos pela insignificância - que duraram mais do que deveria. Tateei em busca de sentido, um desvio para o nome e não achei. Mas ao avaliar bem, este nome não durou tanto assim.
Nome que me incentivou à Loucura. Nome que quase me faz perder outro nome - este sim maior e mais bonito do que jamais serão. Nome sem um corpo que valeria a pena desejar, um corpo corrompido de mágoas humanas.

Falo do nome porque hoje, uma delicada amostra de educação inesperada me fez lembrá-lo. Quisera eu não tê-lo criado.

1.26.2012

Cada olhos azuis


Corro a vida atrás de olhos azuis. Não somente azuis, preciso daqueles com o tom certo do que há num riacho profundo numa manhã dos últimos dias do outono no hemisfério sul. Ou não valerão.
Olhos azuis que incendeiam a alma, que eximem a culpa, que elucidam mistérios e que te evoca ao entardecer, sabendo que poderá ir satisfeito para casa e encontrá-los.
Olhos azuis perfeitos, como feitos de lápis-lazúli ambarado, como que caídos do céu. Olhos azuis num rosto perfeito, moldando-o. Olhos azuis como os meus já foram em dado momento, antes de decidirem clarear ainda mais tornando-me o monstro que reluta acreditar no que vê. Olhos perfeitos. Um corpo perfeito.

Um corpo perfeito que vê a luz da forma exata em cada centímetro. Uma carne tão clara que parece inumana. Contornos, espaços, minha morada. A moldura perfeita para grandes olhos azuis e um coração confuso.
Olhos azuis que não viram o destino chegar, não viram o que estava por vir e deixou de se proteger quando a hora da partida chegou. Correntes, cruzes, perfumes - nada bastou além dos olhos azuis, indeléveis quando se ouve som da turbina de um avião. Talvez seja uma compensação pelo esforço, acabar num ponto ainda mais distante de como começara.

Não há mais olhos azuis ou carne branca. Tampouco um som, que seja de sua voz. Não há quase nada a se ver, quando se fecha os olhos a não ser esperar pelo reflexo de olhos azuis.

Um nome, um local, um período, um começo. Unicamente algo que não volta atrás e que aconteceu para definir que nunca poderia ter acontecido. Paradoxalmente excitante.


1.22.2012

Ao redor de mim habitam Feras


Ou serei eu a Fera?

Parte de mim é vista, conhecida. Parte anda incólume pelas sombras. Todas as partes têm desejos e procuram saciá-los, com compromissos ou casualidades.

Divago, ao correr a vida noturna, procurando em sortilégios infantis um toque do desejo masculino que tanto me faz falta, congelando a alma, enrijecendo o sexo e acima de tudo, criando a comunhão.

Moro só, com meus medos e vícios belicosos. Moro com minha ardente sexualidade, nunca satisfeita. Ao meu lado, mora a sensualidade em pessoa, já experimentada. Nossos espaços separados, nossas necessidades unindo-se vez ou outra.

Não uma ou duas vezes corri à sua porta durante a noite para consumar. Também viera a mim, em seus acessos de fúria, sabendo que somente eu poderia aplacar. Estranho como sempre há uma vontade que vai e uma substância que fica pois, ao acalentar usando meus meios, também sou beneficiado.

Horas foram as que se seguiam enquanto juntos estávamos, enamorados, unidos ao aroma agridoce de corpos tão semelhantes. Estranho também é saber que estamos sempre prontos, um para o outro. Parece irradiar de mim - sendo a recíproca verdadeira - um alerta feromônico de apetite. Sem poupar os detalhes, relato:

Possuir:
É somente o que me passa pela mente animalesca quando este algo a priori me possui. Como disse, é instintivo. Parece que, ao me colocar à sua porta, a chave gira e em minha esperança encontro o que preciso, ali, aguardando do momento e situação que fosse.

Invadir:
Primeiro o espaço, depois a boca com minha língua lasciva e então a percorrer o corpo, tomando cada centímetro de área possível. Nunca cedo antes do tempo previsto, continuo e continuo a redescobrir um corpo conhecido mas sempre mutante, a crescer em seus contornos rijos, ora andrógenos ora definidamente associativos.

Aplacar:
Depois de várias ações corpóreas é a hora do Prazer Primevo. Um beijo negro. Confesso que não me controlo e geralmente as marcas do descontrole são encontradas até semanas após estes atos. Seja braço, perna, costas, coxa, peito e sempre, pescoço. Ao beber, realizo os dois. Conheço a raiva há muito mais tempo do que qualquer ser humano e me dou melhor com ela, este escape é sempre uma arma em minhas mãos. Bebo de essência a suor, sangue, ira, desejo e cumplicidade. Se confio em poucos humanos para beber descaradamente, encontra-se aqui um exemplo. O fluido verte para mim sempre latejando (aqui sim, pouparei alguma cena que ainda consideram enjoativa e estritamente macabra, mesmo para minha espécie).

Consumar:
Depois de beber, devorar. Já domino, posso remeter agora ao prazer carnal. E que prazer! É como cem beijos negros simultâneos quando se possui um corpo desta forma. Ruborizando faces, invadindo corpos sem precaução alguma, tomando o que é meu por direito, alucinando enquanto os movimentos fluem sempre mais ágeis, insubmissos, sem medo de empregar força demasiada.

Morrer:
Sim, morrer. Atingir o clímax e notar que está morto, há eras. E será sempre morto enquanto não tiver mais deste milagre.

E então, como corpos confundidos com a grande pintura apresentada para os céus, dispersar até que o corpo se recupere. Selo as feridas com meu próprio sangue milagroso, mantenho a constância dos beijos. Tem sido assim há algum tempo. Espero que termine logo.

Se alguma uma entidade da Noite disser que vive apenas de noite, ela mente. Não podemos. Vivemos - ou fingimos - de vivências na noite, não dela própria. Precisamos de toques, aromas, potências, desejos abatidos e contabilizar almas perdidas. Este acabará sendo meu legado.

Talvez eu tenha errado, quando não ouvi o conselho do cão que estava à minha porta


Há algumas noites, após um longo dia de trabalho, eu decidi caminhar pela rua. Havia sido um dia cansativo, estressante e - para nenhuma surpresa - eu havia me superado. Precisava pensar no modo como minha vida seguia, com minhas virtudes sendo desqualificadas a cada dia mais e meu grande amor negligenciando minha presença. Como citei, havia sido exaustivo o dia e ainda mais atordoante saber que havia passado por ele sem uma prova de carinho sequer.

Há um tópico a acrescentar que, em minha própria morada e nas adjacências, as pessoas ignoram minha presença. Depois, claro, de tanto tentar envolver-se em minha vida pessoal. Por ser um homem de hábitos noturnos que passa a maior parte do dia em regime de trabalho e aos finais de semana sempre oculto, acredito que tenha gerado uma certa curiosidade. Pois bem, esta sutileza muito me ajuda nos passeios.

Conheço as vozes que falam em minha mente.

Pois bem, caminhei até o limite da rua e voltei. Diversas vezes. Na pressuposta última, parei em meu próprio portão e notei que havia um cão acomodado. Belo cão por sinal, malcuidado mas com certo porte. Sentei ao seu lado e acariciei-lhe o dorso. Ao tocá-lo, acredito que ele tenha notado o que eu levei mais um décimo de segundo para perceber.

Em seguida, talvez pelo que tenha sido gerado ao toque, o cão me questionou sobre o motivo de minha fuga. Sem a mínima altercação disse-lhe que eu fugia há tanto tempo que nem lembrava mais o porquê - animais e eu nos falamos, sempre que possível e principalmente quando uma das partes precisa de um conselho. Foi este o estopim para uma conversa que, graças aos Céus, rendeu-me tão valorosa gratidão ao cão.

Conversamos sobre este ponto em questão: ele, assim como eu, fugia. Num patamar mais doméstico, a fuga dele era por maus tratos. Descendia de uma nobre raça e não admitiria sofrer nas mãos de quem, por cinco vezes, protegera. Nobres nem sempre são altruístas, constatei e isso valeu-me de lição. Conversamos sobre tempos antigos, fidelidade, amores, crias, redenção e, desesperado, comecei a falar de mim mesmo e de minhas recentes abominações. Falei para ele dos meus desejos de amar e procriar, de matar, de vingar, de ousar e de desaparecer, como sempre busquei. Transcrevo aqui as palavras que ele, vivendo neste mundo há quatro anos humanos e vinte e três anos caninos, me disse:

"Não é justo, sabemos. Não é bonito, também sabemos. Herdar um trono maculado não deveria ser permitido. Porém um rei cai para que o outro assuma e o reino pode ser lavado. Uns optam por sediá-lo em sangue, outros por confraternização. O que quero dizer em suma é que você tem a escolha, não seus pais. Eles o trouxeram aqui mas não podem guiar sua jornada. Talvez, eu tenha sido metafórico demais quando me referira a seus pais, sabendo que o senhor não deriva de carne de homens. O que realmente consta é que, estando aqui se tornará verdade o que disser assim como será no céu. Corra, busque sua eternidade, esconda-se, exponha-se, erre, cresça e chore. Tudo é válido. Deseje e incentive, não tente ser maior diminuindo os outros sabendo do seu potencial ilimitado. Caso o céu precise do senhor, novamente ele o chamará. Enquanto isso, aproveite a vida que o senhor escolheu. Sim, foi uma escolha há algum tempo, mesmo que não tenha consciência. Optou cair para estar aqui e agora pretende voltar sem ao menos ter tentado? Não arriscaria chamá-lo de fraco, mas ousaria dizer que o senhor não chegou onde pode chegar. Cumpra seus próprios decretos, rejubile-se quando puder. Teu tempo aqui é maior do que o deles e flui de forma diferente, já notara antes. Cabe portanto fazê-lo grande da melhor forma. Deseje, mas não fique apenas nisso. Deseje e cumpra. Minha vida aqui é determinada e mesmo assim eu optei ser um amigo do homem que me criou, pude protegê-lo e aos seus, até que ele confundiu-se com seus próprios vícios e começou a me ver como ameaça. Entendo que poderás passar pelo mesmo, nosso porte os assusta. Temem o que acham que podemos fazer para com eles. A quem nasce feroz não importa o tom de voz, ouvi certa vez um homem velho falar. Mas nascer feroz não é escolha, ferir é. Senhor, sempre será sua decisão acima de qualquer coisa e, se por mim ou de mim precisar, poderá contar sempre."

Estas palavras me fizeram voltar à superfície de minha alma e, ao olhar os olhos sinceros do cão - seu nome não poderia ser mais imponente, Rei - pude ver os meus próprios. Pensei na minha sede de sangue e no quanto abstrai-me para não incentivá-la. Pensei nos amores que deixei passar tomando a decisão por eles do risco que corriam. Pensei nos amigos que não tive porque temi a minha própria exposição e hoje, por meios completamente novos ao meu tempo, eu mesmo ignoro de forma tão brutal.

Ficamos mais alguns minutos em silêncio, apenas um e outro, sentados lado a lado como velhos amigos. Logo após, ele se despediu de mim, com carinho e afeto e disse que em qualquer instância em que eu precise dele, ele poderá ser chamado. Simplesmente precisava ir para muito longe mas que voltaria, algum dia breve, afinal não são muitos que ainda falam - e ouvem - os cães nos dias de hoje.

Isto aconteceu há apenas algumas noites mas para mim ainda está tão latente quando este momento enquanto escrevo.

Obrigado, Rei, pelas palavras.